Por que os delegados não sabiam quais resoluções em disputa no 55º CONUNE?

Johannes Halter
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O terceiro dia do 55° Congresso da UNE, que aconteceu neste sábado (17/6), estava reservado para a votação das resoluções políticas que devem guiar a entidade pelos próximos dois anos. Mas o que os delegados e demais participantes presenciaram foi uma repetição dos métodos burocráticos de organização e condução dos debates, que deveriam ser vitais.

Desrespeitando a programação, a leitura das teses apresentadas começou a ser feita no plenário após o meio-dia. O sistema de som instalado no Mineirinho era de uma qualidade ruim para o espaço ocupado pela platéia, impossibilitando a compreensão do que se ouvia. Ao mesmo tempo, as delegações organizadas faziam demonstrações de suas baterias, impossibilitando a audição por parte de seus integrantes, assim como dos demais.

Para agravar o formato burocrático do evento, a coordenação da UNE decidiu emendar as leituras de todas as teses para os três eixos de resolução delimitados pela mesma: movimento estudantil, educação e conjuntura. O efeito não poderia ser mais prejudicial para o desenvolvimento de uma genuína discussão das ideias em debate. Também não poderia ser mais feliz para os agrupamentos que compõem a atual direção majoritária e para aqueles que se somaram a esse campo nas votações em curso nesse dia 17. Isso porque a enfadonha e burocrática leitura inaudível de textos afastou os estudantes do plenário e ofereceu uma justificativa confortável para que as direções dos agrupamentos removessem seus integrantes do mesmo espaço.

Do lado de fora do estádio, entoavam músicas e tocavam energicamente seus instrumentos musicais. Como nas últimas edições, tanto os líderes da União da Juventude Socialista (UJS) e seus aliados do espectro petista, quanto aqueles da oposição, que pedem por mais democracia, instigavam gritos de hostilidade e ofensa para com os membros das delegações rivais. Em várias ocasiões, aludiam ao assassinato ou ferimento daqueles que estavam convencidos da justeza, da política e dos métodos do agrupamento adversário. Enquanto isso, um ato formal se desenrolava no interior do prédio, o que seria classificado como “grande demonstração da democracia”. Soma-se a isso um sistema de almoço defasado, no qual as filas estavam praticamente paradas após as 13h, se estendendo por centenas de metros até por volta das 17h. Uma repetição do problema se deu na janta.

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Desde as 9 horas da manhã, a Liberdade e Luta estendeu sua tenda na frente do portão do prédio. De lá, duplas e trios de militantes se espalharam pelo espaço. Seus objetivos eram mostrar outro método de atuação no movimento estudantil, que corresponde às teses políticas que defende. Ao invés de perpetuar a disputa burocrática de panelinhas, lançaram-se ao diálogo com delegados e observadores de todas as delegações organizadas pelo congresso. A apresentação da tese “A liberdade é nossa meta, a luta é nosso método” foi recebida com entusiasmo por centenas de participantes que nunca teriam a chance de conhecê-la se ficassem reféns dos espaços burocráticos e formais que compõem o congresso, ou do discurso de hostilidade despolitizado dos grupos. Explicamos nossas propostas para o movimento estudantil e dialogamos com as idéias que eles haviam tido acesso até então. Muitos deles haviam sido eleitos ou trazidos sem uma profunda discussão sobre as teses e diferentes propostas que estão colocadas.

Ao iniciar os trabalhos da programação, os delegados da Liberdade e Luta estavam a postos para buscar participar ativamente das discussões. Tendo isso sido bloqueado pela direção do evento, somaram-se ao combate por apresentar de mão em mão a tese pela qual foram eleitos em suas universidades.

Ao ser aberto a sequência de falas das teses apresentadas, novamente se posicionaram nas arquibancadas, e destacaram membros da delegação para falar ao plenário. O mesmo processo de inviabilizar a audição e a compreensão do que era debatido se repetiu, pelo débil sistema sonoro instalado e ao comportamento de torcidas organizadas dos agrupamentos no interior da plenária. Com esse espaço sem debate, permeado de métodos sectários, a maioria dos participantes foi ao momento da votação refém do formato do evento e do comportamento dos grupos que a guiaram. E em meio a essa situação votaram em teses que se apresentaram para os três eixos já citados.

Nas posições da atual direção majoritária da UNE, composta pela UJS, CNB-PT e outros grupos petistas, somaram-se aqueles que se denominam como “Campo Popular”. Essa variedade de grupos políticos se uniu em propostas para os três eixos e correspondem à continuidade das orientações da entidade nas ultimas décadas para a educação e para o movimento estudantil. Essas se fundamentam na impossibilidade de alcançar a universalização do ensino público e gratuito. Em contraposição, buscam uma série de medidas que se subordinam ao atual sistema educacional e ao modelo econômico e político vigente do país. São expressões dessa perspectiva: a defesa da regulamentação do ensino privado; a manutenção dos programas de transferência de dinheiro público da educação para as instituições privadas, como o FIES e o ProUni; as medidas racialistas das cotas; a subordinação do investimento em educação a 10% do PIB; atrelando o setor ao crescimento ou diminuição dos negócios capitalistas; a defesa dos royalties do Pré-Sal para a educação, quando a exploração e lucros desse recurso natural brasileiro é explorado por consórcios de empresas internacionais; entre outras tantas posições recorrentes de uma adaptação a atual ordem econômica e política capitalista.

Seguindo o mesmo movimento, os delegados que votaram nas duas resoluções também foram orientados a se unir unanimemente em torno de um texto sobre conjuntura. Assim como nos anteriores, esse documento seguia a mesma adaptação aos canais de ação e representação permitida pelas atuais instituições da República burguesa desmoralizada e ao sistema eleitoral autoritário existente. Os mesmos que organizaram o congresso nos formatos burocráticos sem voz e vez para as massas estudantis dizem-se defensores da democracia. Esqueceram de orientar os delegados à democracia existente, limitada às instituições e leis burguesas. Por isso clamam pela realização de “Diretas Já!” em um momento que os trabalhadores e jovens olham com desprezo e não dão apoio ao Executivo, ao Congresso Nacional e ao Judiciário.

Para a Liberdade e Luta, a defesa das ideias apresentadas em sua tese se deu também buscando avançar as formulações de outros agrupamentos que se colocam no campo da oposição no movimento estudantil. Essa disposição, já demonstrada nas eleições de delegados, expressou-se na apresentação de textos em conjunto com agrupamentos diferentes para os eixos do movimento estudantil, em que nos somávamos à reivindicação de uma UNE democrática, voltada a permitir a voz e decisão aos universitários, assim como no eixo de conjuntura. Nesse último, expusemos a situação de desmoralização das instituições burguesas entre as amplas massas de trabalhadores e jovens, constituindo-se em uma oportunidade da UNE apontar a auto-organização popular em assembleias contra Temer, o Congresso Nacional e os ataques promovidos. Apontamos que a saída para a situação de ofensiva da burguesia e para a crise do capitalismo deveria passar pela constituição de outro poder, que seja a expressão de um governo dos trabalhadores.

No eixo de educação, foi necessário apresentarmos um texto independente para expressar o centro de nossa contribuição ao Congresso: propor que a UNE retome sua Carta de Princípios de 1979, quando caracterizava como indiscutível lutar centralmente por educação pública, gratuita e para todos, da creche até a universidade. Ao lado dessa bandeira, a UNE defendia o fim do ensino pago. Essas posições, que já guiaram o movimento estudantil brasileiro, hoje são expressas de forma minoritária pela Liberdade e Luta. Mesmo expondo-as sozinhos no plenário, os militantes da LL têm convicção de que são as idéias que correspondem às necessidades e anseios dos milhões de jovens que estão dentro e fora da escola e da universidade.

É para criar as condições de ligação entre o programa de educação pública gratuita e para todos e aqueles que têm suas necessidades respondidas plenamente por ele que a LL surgiu. É também por isso que criamos núcleos em várias escolas e universidades, assim como participamos do Congresso da UNE. Em paralelo à defesa e difusão dessas idéias, vemos a necessidade de superar os métodos burocráticos que guiam atualmente o movimento estudantil. Ao mesmo tempo, apresentamos uma concepção de militância livre dos vícios e comportamentos sectários para com os jovens que não participam do movimento estudantil, ou que têm como porta de entrada organizações com uma concepção reformista sem reformas e que nutrem um ódio sectário para com seus adversários.

Este 55º Congresso da UNE foi uma primeira experiência nacional para milhares de jovens. Queremos continuar o combate que travamos desde que desembarcamos em Belo Horizonte: ajudar essa parcela mais ativa e combativa dos estudantes a compreender o atual estágio do movimento estudantil e lhes mostrar qual programa e métodos podem criar outro tipo de movimento estudantil. Se você conheceu nossa tese no Congresso, está lendo nossas avaliações e sente-se representado, entre em contato e vamos construir um núcleo da LL para levar essas ideias a frente em sua escola, na sua universidade ou no seu local de atuação.

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