Os 200 anos de Karl Marx

Daison Colzani
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Introdução

O marxismo é a história e a teoria da luta de classes. A memória da classe operária. A vitória final da classe trabalhadora, a conquista de uma sociedade sem explorados e exploradores só poderá ser alcançada se aprendermos com as lições da luta de classes do passado. Para a Liberdade e Luta a teoria marxista não é um dogma, mas um guia teórico para a ação. Para isso, a teoria marxista deve ser estudada seriamente.

Em 2018, completam-se 200 anos do nascimento de Karl Marx e como forma de comemorar esse ano, nada melhor do que apresentar as próprias ideias desenvolvidas por Marx e, por seu grande amigo, Friedrich Engels. Começaremos com esse artigo introdutório que apresenta um pouco da vida de Marx e faremos um esforço, ao longo do ano, para publicarmos uma resenha de cada uma das seguintes obras: “Manifesto do Partido Comunista”, “Crítica ao Programa de Gotha”, “Trabalho Assalariado e Capital”, “Salário, Preço e Lucro”, “Luta de Classes na França”, “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, “A Ideologia Alemã” e “Teses de Feurbach”.

A todos os interessados na teoria marxista, sugerimos a leitura das resenhas e de cada uma dessas obras e convidamos cada jovem, cada trabalhador a se unir à Liberdade e Luta e se organizar para construir um mundo novo, uma sociedade socialista.

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karl_marx.jpgO ano de 2018 marca os 200 anos do nascimento de Karl Marx, o filósofo, jornalista, escritor, mas acima de tudo o revolucionário. Escrever sobre Marx não é escrever sobre o homem, mas sobre suas ideias, a importância e a força que permanecem ainda nos dias de hoje. Tamanha foi sua genialidade, que sua obra não se trata de um livro ou outro, mas dezenas deles e que dificilmente se pode aferir o grau de importância de um em relação ao outro.

Nascido na Alemanha em 1818, sua consciência de classe logo o colocou ao lado dos trabalhadores de todo o mundo convocando-os a unir-se e pôr abaixo o capitalismo. Sua família era relativamente abastada, o que permitiu a Marx freqüentar a Universidade onde teve contatos com as ideias de Hegel, o que serviriam de base para suas teorias. O contato com os chamados “Hegelianos de Esquerda” durou até que Marx percebeu que as palavras estavam distantes da ação. Sua trajetória mostraria o quanto ele defendeu a necessidade de aliar a teoria com a ação revolucionária.

Se Hegel forneceu as bases para a dialética, foi de Ludwig Feuerbach que Marx chegou ao materialismo. Faltava a Feuerbach a dialética e ao perceber isso Marx o criticou escrevendo as “Teses sobre Feuerbach” onde conclui afirmando:

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”

A combinação dos elementos dos dois filósofos permitiu a Marx formar as bases do que seria o marxismo.

Suas ideias chacoalharam as bases do ainda jovem capitalismo e despertaram o ódio da burguesia - que atacaram os ensinamentos de Marx da forma mais feroz possível. A publicação em 1848 do Manifesto do Partido Comunista, escrito com seu grande parceiro Friedrich Engels, foi um duro golpe na burguesia e a melhor descrição do impacto de suas ideias está expresso nas primeiras linhas dessa obra fundamental do comunismo:

“Anda um espectro pela Europa — o espectro do Comunismo. Todos os poderes da velha Europa se aliaram para uma santa caçada a este espectro, o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e polícias alemães.

Onde está o partido de oposição que não tivesse sido vilipendiado pelos seus adversários no governo como comunista, onde está o partido de oposição que não tivesse arremessado de volta, tanto contra os oposicionistas mais progressistas como contra os seus adversários reacionários, a recriminação estigmatizante do comunismo?

Deste fato concluem-se duas coisas:

  1. O comunismo já é reconhecido por todos os poderes europeus como um poder.
  1. Já é tempo de os comunistas exporem abertamente perante o mundo inteiro o seu modo de ver, os seus objectivos, as suas tendências, e de contraporem à lenda do espectro do comunismo um Manifesto do próprio partido.

Com este objetivo reuniram-se em Londres comunistas das mais diversas nacionalidades e delinearam o Manifesto seguinte, que é publicado em inglês, francês, alemão, italiano, flamengo e dinamarquês.”

Pouco antes do lançamento do Manifesto Comunista, Marx em conjunto com Engels havia escrito um texto muito interessante chamado “Princípios Básicos do Comunismo”, que demonstra a imensa maturidade do jovem Marx, que escreve em forma de perguntas e respostas das questões mais básica até as mais complexas.

A força de suas ideias é tamanha que 90 anos após a publicação do Manifesto do Partido Comunista, o revolucionário russo Leon Trotsky reafirmou não só a força da concepção materialista da história, como destacou a necessidade fundamental de assimilar esse conceito para ser um verdadeiro militante revolucionário. Trotsky ainda destaca a frase: “A história de todas as sociedades até os dias de hoje não foi senão a história da luta de classes”. Para ele, a força dessa frase reside no fato de ser a mais importante conclusão da concepção materialista.         Certamente o prefácio ao Manifesto escrito por Trotsky dá um panorama da genialidade de Marx.

Ao explicar através de uma análise científica o fracasso do capitalismo e a necessidade do proletariado cumprir seu papel de por abaixo esse sistema baseado na exploração do homem pelo homem, Marx lançou as bases para a luta socialista em todo o globo. Suas ideias inspiraram gerações e seu fruto mais belo certamente foi a Revolução Russa de outubro de 1917.

A opção de Marx, a sua dedicação as suas ideias e a elaboração de suas obras tem significado fundamental para o proletariado mundial. Seus sacrifícios pessoais foram imensos, seja pela constante perseguição política a que foi submetido, como a extrema pobreza que levaram a morte de alguns de seus filhos, sua capacidade intelectual e sua dedicação a luta revolucionária jamais serão esquecidas. A mais bela homenagem que podemos prestar é continuar o combate pelo fim do capitalismo e por uma sociedade em que nenhum homem explore o outro.

A melhor maneira de encerrar este texto é com as palavras que Engels usou no funeral de seu grande amigo e camarada:

Pois, Marx era, antes do mais, revolucionário. Cooperar, desta ou daquela maneira, no derrubamento da sociedade capitalista e das instituições de Estado por ela criadas, cooperar na libertação do proletariado moderno, a quem ele, pela primeira vez, tinha dado a consciência da sua própria situação e das suas necessidades, a consciência das condições da sua emancipação — esta era a sua real vocação de vida. A luta era o seu elemento. E lutou com uma paixão, uma tenacidade, um êxito, como poucos. A primeira Rheinische Zeitung em 1842, o Vorwärts! de Paris em 1844, a Brüsseler Deutsche Zeitung em 1847, a Neue Rheinische Zeitung em 1848-1849, o New-York Tribune em 1852-1861 — além disto, um conjunto de brochuras de combate, o trabalho em associações em Paris, Bruxelas e Londres, até que finalmente a grande Associação Internacional dos Trabalhadores surgiu como coroamento de tudo — verdadeiramente, isto era um resultado de que o seu autor podia estar orgulhoso, mesmo que não tivesse realizado mais nada.

E, por isso, Marx foi o homem mais odiado e mais caluniado do seu tempo. Governos, tanto absolutos como republicanos, expulsaram-no; burgueses, tanto conservadores como democratas extremos, inventaram ao desafio difamações acerca dele. Ele punha tudo isso de lado, como teias de aranha, sem lhes prestar atenção, e só respondia se houvesse extrema necessidade. E morreu honrado, amado, chorado, por milhões de companheiros operários revolucionários, que vivem desde as minas da Sibéria, ao longo de toda a Europa e América, até à Califórnia; e posso atrever-me a dizê-lo: muitos adversários ainda poderia ter, mas não tinha um só inimigo pessoal.

O seu nome continuará a viver pelos séculos, e a sua obra também!”

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