Os Coletes Amarelos e a crise revolucionária na França

Lucy Dias

000-1ba3r8.jpg

O movimento dos Coletes Amarelos (Gilets Jaunes) tomou proporções revolucionárias na França, se tornando a menina dos olhos da revolução no próximo período. O movimento já realizou o seu 5º ato consecutivo e no decorrer das manifestações, as pautas se ampliaram, atraindo e ganhando massas cada vez mais amplas da sociedade francesa e indo além das fronteiras nacionais, com manifestações similares na Holanda e Bélgica.

As manifestações começaram dia 17 de novembro, com uma pauta bastante concreta: a redução dos preços dos combustíveis, que do ano passado para cá aumentaram cerca de 23%. Os coletes amarelos, que agora não são mais somente os caminhoneiros profissionais ou motoristas, mas amplas massas, representam o completo repúdio ao rebaixamento das condições de vida, que o povo francês está sofrendo com o governo de Macron.

O movimento evoluiu e está alterando a situação política, acirrando o conflito de classes na França, uma vez que começou a exigir também a demissão de Macron e a dissolução da Assembleia Nacional. É o ódio de classe contra os patrões e contra o sistema que começa a ganhar uma forma mais organizada, com assembleias gerais sendo convocadas em várias partes do país, como em Toulouse, com cerca de 500 ativistas reunidos para discutir as pautas do movimento e seu fortalecimento.

Aliança Operário-Estudantil

Os jovens, tanto universitários como secundaristas, estão mobilizados no apoio ao movimento e nas manifestações, enfrentando brutal repressão policial. Porém, além disso, estão organizados também, realizando assembleias gerais para debater a situação do movimento e como apoiar.

‘‘Uma moção escrita pelos camaradas da CMI, expressando apoio aos coletes amarelos e convocando uma ação de greve coordenada para derrubar o governo, já foi aprovada por maioria esmagadora na universidade Paul-Valéry-Montpellier e Toulouse, e será debatida em Lyon. Em Nanterre, foi aprovada hoje [10/12] uma resolução em uma assembleia de 2.000 pessoas (tanto de estudantes quanto de funcionários) que declarou a solidariedade da universidade com os coletes amarelos e em oposição à repressão do Estado; e prometeu que a universidade entraria em greve até o momento em que uma série de demandas (incluindo o cancelamento da contrarreforma da educação) fossem atendidas. A resolução também pede a demissão de Macron.’’  (trecho do artigo Os Coletes Amarelos na França e o Ato IV: transformar o movimento em uma revolução!, de Joe Attard e Jordi Martin)

Por outro lado, os trabalhadores em apoio ao movimento dos Coletes Amarelos buscam apoiar os estudantes a participar das manifestações, até mesmo protegendo-os da repressão, como aconteceu em Marselha, depois do seguinte episódio:

‘‘A polícia tratou os estudantes com particular brutalidade, o que só agravou ainda mais o movimento. Por exemplo, na quinta-feira, 7 de dezembro, mais de 150 estudantes de ensino médio de Mante-la-Jolie, na região de Île-de-France, no centro-norte da França, que protestavam contra as reformas dos exames nacionais, foram forçados pela polícia antimotim a se ajoelhar, com as mãos atrás de suas cabeças. Essa absurda “prisão em massa” de toda uma escola foi descrita, corretamente, pelo parlamentar de França Insubmissa, Eric Coquerel, como “inaceitável e humilhante”. Em resposta a esse ultraje (as filmagens se tornaram virais na mídia social), dezenas de estudantes e professores de toda a França se ajoelharam com as mãos por trás das cabeças em solidariedade, incluindo um grande grupo na Praça da República em Paris, na sexta-feira. Em alguns outros locais, como Marselha, delegados da CGT saíram para defender fisicamente os alunos da brutalidade da polícia antimotim.’’ - Idem.

Muitas escolas e universidades já se encontram paralisadas ou ocupadas, o que só demonstra que os estudantes estão conectados como a necessidade de um grande movimento de greves coordenadas para derrotar o governo francês.

Os reformistas

As direções reformistas se comportam como capachos do capitalismo francês e dos patrões. Recentemente as direções das seis centrais sindicais mais poderosas emitiram uma nota conjunta que provocou novas ondas de revolta entre a base. No comunicado , os dirigentes sindicais defenderam que as manifestações fossem pacíficas. A nota promoveu tamanho escândalo entre a base que diversos ramos de diferentes categorias emitiram textos repudiando a posição e expressando a justaposição de que a violência não estava do lado dos manifestantes, mas sim da polícia e dos patrões.

A Federação Nacional da CGT das Indústrias Químicas também rejeitou a declaração conjunta, dizendo que é “indigna da CGT”, e condenando, em vez disso, “a violência dos patrões, a repressão policial e sindicalista, bem como a cumplicidade reformista”. A declaração continua: “se há violência, a responsabilidade por ela está nas fileiras dos opressores e não na dos oprimidos… o papel da CGT é estar lado a lado com os trabalhadores e não agir como auxiliar dos patrões e do governo”.  - Idem.

A posição dos dirigentes da CGT, maior central sindical da França, é de que o salário mínimo seja revalorizado, o que é totalmente diferente da demanda inicial do movimento, o cancelamento dos impostos sobre o combustível.

Nossos camaradas da seção francesa da Corrente Marxista Internacional (CMI), explicam que:

‘‘Esta posição é completamente equivocada e totalmente desconectada da situação real. É claro que devemos lutar por aumentos do salário mínimo e dos salários em geral. Mas esta demanda não contradiz ou exclui a demanda que está no cerne do movimento dos Coletes Amarelos, e que animou amplas camadas da sociedade: o cancelamento do aumento dos impostos sobre os combustíveis. Em vez de opor isto à demanda por aumentos salariais, a direção da CGT deve assumir a demanda central (e justa) dos Coletes Amarelos, ao mesmo tempo em que deve defender seu programa geral de aumento do poder aquisitivo – incluindo, é claro, um aumento dos salários.

A CGT deve explicar que o aumento dos impostos sobre os combustíveis não tem nada a ver com o meio ambiente. Isso é um saque em benefício das multinacionais, porque o dinheiro do aumento dos impostos terminará nos cofres dos patrões, na forma de subsídios e brindes fiscais. Se o governo necessita de alguns bilhões de euros para sustentar seu orçamento, que os tome dos cofres das multinacionais e não dos bolsos das pessoas! Em vez de tornar este ponto simples e claro, Philippe Martinez deixou implícito que as mãos dos patrões estão por trás dos Coletes Amarelos, espalhando dessa forma a desconfiança.’’ (França: Os Coletes Amarelos, Lenin e a liderança da CGT)

Junho de 2013 no Brasil

Em 2013 no Brasil, algo muito similar se processou. Uma nova situação política se abriu com manifestações em todos os cantos do país iniciadas pelo aumento das tarifas de transporte. Uma onda de protestos massivos tomou todas as capitais e cidades que nunca antes tinha experimentado uma manifestação também foram tomadas pelo espírito de insatisfação com as condições de vida. Aqui, a direção do movimento, o Movimento Passe Livre, de tradição anarquista, restringiu as manifestações a apenas uma única pauta, a redução do preço das tarifas de transporte. Mas o movimento foi irresistível e pautou todas as questões da vida, colocando em cheque inclusive as instituições falidas do sistema capitalista.

Por aqui, assim como na França, a direita também tentou capitanear o movimento, colocando seus infiltrados, aproveitam-se do ódio às organizações tradicionais para estimular nacionalistas e anti-comunistas nas manifestações.  O movimento aqui foi enfraquecido pela ausência da audácia revolucionária da sua direção e uma direção que se recusava a assumir esse papel. A mobilização não avançou e o único saldo daquele movimento foi arrancar o passe livre apenas na cidade de São Paulo e, apenas, para estudantes. Não foi uma derrota, mas podemos dizer que a força daquele movimento era capaz de se desenvolver no sentido das manifestações francesas.

WhatsApp%20Image%202018-11-27%20at%2018.13.59.jpegNa França, as massas estão se mobilizando com base em uma consequente ampliação das pautas que demonstra o estágio de consciência e ódio generalizado ao sistema. Jovens e trabalhadores colocam em prática a aliança operário-estudantil e a mobilização caminha para sua auto-organização através das assembleias populares.

Entretanto, ainda é preciso a ampla organização de greves por tempo indeterminado, onde o papel dessas assembleias, se convertendo numa assembleia geral, com delegados eleitos e revogáveis a nível nacional e representação dos trabalhadores e estudantes, será fundamental para organizar e coordenar o movimento rumo a derrubada do governo e o desenvolvimento de uma situação abertamente revolucionária na França.

Nossa tarefa é oferecer a solidariedade internacional da luta dos oprimidos contra o capital e dar forças aos proletários de todo o mundo na nossa batalha, que fundamentalmente, é uma só: derrubar o sistema capitalista e erguer uma nova sociedade onde possamos ser plenamente livres.

Aqui no Brasil, estamos organizando a resistência e o combate contra o governo Bolsonaro que se aproxima. Na França, grandiosas manifestações das amplas massas despontam sob a cabeça do governo e dos reformistas. E pelo mundo todo, o ódio ao sistema pulsa em cada veia dos jovens e trabalhadores oprimidos. Como disse Lenin, ‘‘na luta do proletariado pelo poder, a sua única arma é a organização!’’. Para vencer, precisamos estar organizados e conquistar o poder.

Data post