Vidas em Branco: Tragédia em Suzano, redução da maioridade e posse de armas

Lucy Dias

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Luiz Henrique de Castro de 25 anos e Guilherme Taucci Monteiro de 17 anos protagonizaram nesta quarta-feira (13/03) a tragédia ocorrida na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, deixando mortos cinco estudantes, duas funcionárias e um comerciante. Além dos dois jovens, que se mataram ao final.

Após a lamentável tragédia, o Major Olímpio, Senador do PSL, disse ‘‘As nossas escolas deveriam ser um local da proteção para nossas crianças e infelizmente não estão mais seguras. Precisamos urgentemente rever a nossa política de segurança pública, bandido não tem idade, e essa tragédia apenas reafirma que precisamos reduzir a maioridade penal já.’’ e também que ‘‘a política de desarmamento fracassou, essas armas são ilegais e foram obtidas e usadas por adolescentes.’’

As escolas públicas, principalmente as de bairros e cidades pobres, onde mora a classe trabalhadora, nunca foram seguras. Quem estudou lá sabe que o tráfico de drogas está presente, dentro e fora das escolas, e conseguir uma arma não é muito difícil com esses vizinhos… A ronda militar está lá também, mas de nada serve a não ser para enquadrar e humilhar a juventude pobre.  Quem estudou na escola pública sabe também que ‘‘pular muro’’ nunca foi coisa difícil, porque com a falta de investimentos, as escolas caem aos pedaços, falta estrutura em todos os aspectos, desde livros didáticos a estruturas de segurança.

A experiência de estudar em uma escola pública, caindo aos pedaços, é revoltante. Você é obrigado a ficar lá, em salas mal ventiladas e superlotadas. Os professores são mal pagos e estão sobrecarregados. Os estudantes não tem uma perspectiva de futuro. A escola pública, em geral, tem mais semelhanças com uma prisão do que com um local de educação, cultura e aquisição de conhecimento.

A tragédia de Suzano se soma a outras similares. No Brasil, em 2011, no bairro de Realengo (RJ) um ex-aluno abriu fogo na escola em que estudou, matou 12 pessoas e se suicidou, em 1999 um outro jovem abriu fogo com uma metralhadora dentro de um cinema no Shopping Morumbi em São Paulo. Nos EUA, são vários os casos de ataques armados de estudantes em suas escolas, sendo o mais emblemático, o de Columbine em 1999. Em vários países da Europa já ocorreram casos similares. No dia seguinte ao caso de Suzano, na Austrália um atirador atacou um monastério, matou pelo menos 49 pessoas e transmitiu tudo ao vivo pela internet.

Diante disso tudo, não é correta a tese defendida por setores da esquerda de que a tragédia de Suzano decorre da eleição de Bolsonaro. É verdade que o discurso de violência e ódio de Bolsonaro contra minorias, contra a esquerda pode incentivar tais ações. Mas na ocasião da tragédia de Realengo, a presidente era a Dilma. Na tragédia do cinema em SP, o presidente era o FHC. Nos EUA, Europa, Austrália e em tantas outras partes do mundo onde casos similares ocorreram, ninguém ouviu um discurso do Bolsonaro. O problema não é só o Bolsonaro. O problema é o sistema capitalista. Esta é a enfermidade da humanidade que precisa ser superada.

Esses casos chocantes expressam a decadência de uma sociedade. São sintomas do quão insuportável é viver sob um sistema que te humilha e retira qualquer perspectiva de futuro. Tratar os jovens como bandidos não muda esse fato, reduzir a maioridade penal também não impede tragédias, apenas pune depois do ato ter sido cometido. Mas o que adianta se eles se suicidam depois, não é mesmo? Isso só mostra o adoecimento da nossa juventude… E a única saída que podem propor é a punição, é claro! Nenhum centavo a mais para a educação! Nenhum centavo a mais para a saúde!

E quanto aos professores estarem armados? Será que isso realmente mudaria alguma coisa? Então deve a sociedade armar os professores para se defender de seus próprios alunos e ex-alunos? A que ponto chegamos!  Este é um delírio de sujeitos como Trump ou Major Olímpio. A burguesia jamais aceitaria armar os professores. Há muito que o ofício de professor deixou de ser uma profissão liberal, pequeno-burguesa. A categoria dos professores está completamente proletarizada. Os professores iniciaram vários movimentos revolucionários na história recente da América Latina. Imaginem se estivessem armados! Vocês acham que o Alckmin teria conseguido retirar tantos direitos dos professores da rede estadual de SP nos últimos anos, se estes tivessem armas? Acham que a PM teria conseguido reprimir os milhares de professores em greve nas ruas? Acham que o Doria e o Bruno Covas teriam conseguido impor o SAMPAPREV se os professores de São Paulo estivessem armados? A burguesia jamais permitiria armar os professores.

Ao mesmo tempo, utilizar estes casos para defender leis mais duras que visem o desarmamento da população (bandeira de muitas organizações de esquerda), não resolve o problema e não atende os interesses gerais da classe trabalhadora. Em uma sociedade em que vigora a luta de classes, na qual a burguesia está armada, com seus órgãos de repressão, e os narcotraficantes e milicianos também, a realidade é que os trabalhadores desarmados ficam reféns de bandos armados.      

A solução não está no desarmamento. A juventude precisa de perspectiva. E isso o sistema capitalista não pode oferecer. Só pode oferecer cada vez mais sucateamento das escolas, desemprego, insegurança, depressão e violência.

Por isso, a juventude precisa se organizar e lutar por um futuro melhor, por uma nova sociedade. Sob este sistema, barbáries somente vão se repetir…

O Facção Central sintetizou muito bem a questão, em Vidas em Branco:

‘‘Olhei pro passado e lembrei da infância

Dos brinquedos, brincadeiras das outras crianças

Eu lembrei dos sonhos perdidos

Aqui é foda, o presídio sempre vence o livro

Vi dezenas de vidas no crime, passando em branco

Muito ódio na mente nenhum adianto

(...)

De futuro advogado ou artista

Descarregando uma PT e morrendo na mão da polícia

Aqui são raros os bem sucedidos

Mas os que são jogam futebol ou meteram latrocínio

Pra quem é pobre é bem comum

Talento, vocação, um dom, acabando em um bum

(...)

Oh pátria amada idolatrada

Incentivo não é escola desqualificada

Não quero ter que usar o meu talento

Pra cravar meu ódio no peito de outro detento

(...)

Sem dor, sem pena, não faz diferença

Quem planta esquecimento colhe violência

(...)

Droga, carro-forte, assalto à banco

Tantas vidas que passaram em branco

Quantas lágrimas, quantos homicídios

Quantos futuros na lata de lixo...’’


 

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