As queimadas na Austrália, Greta em Davos e o socialismo

Felipe Libório

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                                   Coala tenta fugir do fogo na Austrália | Imagem: TV Record

Desde setembro do ano passado a Austrália ganhou destaque nos noticiários de todo o mundo graças a uma crise ambiental sem precedentes. Os incêndios florestais, comuns nessa época do ano, ganharam proporções jamais vistas e varreram uma área de 117 mil km2, destruindo mais de 2 mil casas, matando 33 pessoas e um número estimado de 1 bilhão de animais silvestres.

O fogo faz parte do ecossistema australiano, mas o aumento das temperaturas associado a uma seca severa e à velocidade dos ventos transformou o que antes eram eventos controláveis em uma verdadeira catástrofe. Algumas das regiões atingidas tiveram 50% menos chuva que a média entre janeiro e agosto de 2019.

Boa parte das áreas queimadas eram parques nacionais que abrigavam espécies de animais e plantas que só podem ser encontrados no país. Algumas delas tiveram 80% de seu habitat queimado, correndo o risco de desparecer para sempre. A estimativa é que se o ecossistema australiano se recuperar, isso levará pelo menos 100 anos.

Esses são apenas alguns dos efeitos das mudanças climáticas, agravadas principalmente pelas emissões de gases a partir da combustão de carvão e derivados de petróleo como a gasolina e o diesel.

A Austrália exporta todos os anos U$ 40 bilhões em carvão, principalmente para países como Japão, China, Índia, Coreia do Sul e Taiwan, que usam o combustível em termelétricas e siderúrgicas. Isso torna a mineração uma das principais indústrias do país, o que significa grandes poderes políticos aos empresários do setor.

O atual primeiro-ministro, Scott Morrison, é um conservador aliado de Trump que defende a mineração com unhas e dentes. Seu governo nega qualquer relação entre as mudanças climáticas e as queimadas recentes e afirma que reduzir a dependência do país da exportação de carvão iria colocar em risco milhares de empregos.

Obviamente a preocupação de Morrison e da classe dominante que ele representa não é com os trabalhadores australianos, mas com seus próprios lucros. Em 2012, a bilionária Gina Rinehart, dona de uma das maiores mineradoras australianas, afirmou que os salários no país estavam altos demais em comparação com os US$ 2 que trabalhadores africanos estariam dispostos a receber.

O descaso da burguesia com os operários é o mesmo dispensado ao meio ambiente. Não se pode esperar que qualquer solução para o aquecimento global venha dos principais responsáveis por ele.

Mudanças climáticas, uma questão de classe

No Fórum Econômico Mundial de Davos, evento que reúne os principais líderes e representantes do capitalismo mundial, o discurso de Greta Thunberg voltou a destacar a necessidade de ação para que as mudanças climáticas não se tornem ainda mais catastróficas.

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                                                                           Imagem: UOL

Embora o senso de urgência de Greta seja louvável, bem como a constatação de que desde o seu último discurso nada de concreto foi realizado, a esperança que ela e diversos outros ativistas demonstram no sistema é uma ameaça tão grande quanto a própria crise climática.

 Sob o capitalismo, o lucro é a prioridade máxima. A vida e a saúde física e mental dos trabalhadores, juntamente com o meio ambiente, são levados em conta somente na medida em que reproduzam as condições de exploração. Uma mudança drástica e imediata capaz de frear o aquecimento global, como Greta acertadamente exige em seu discurso, jamais poderia ocorrer em um mundo onde os donos dos meios de produção acumulam lucros gigantescos justamente por não se preocuparem com as consequências de seus atos.

Quando Greta diz que não se trata de uma questão de direita ou esquerda, está na verdade ignorando a luta de classes e sua relação indissociável da questão climática. A mudança que precisamos não virá como um favor da burguesia mundial, mas terá que ser conquistada pelos trabalhadores através de métodos revolucionários.

A Liberdade e Luta acredita que a resolução para as mudanças climáticas é sim uma questão de classe. A burguesia como classe nasce com o signo da exploração marcado em sua existência, ela explora não só a força de trabalho de milhões de trabalhadores no mundo inteiro, mas explora também os recursos naturais. Apesar de todos os órgãos internacionais criados pela burguesia, sua organização é para continuar mantendo essa lógica de exploração. Nesse sistema, dirigido pelos interesses do lucro, o planejamento da produção para atender as necessidades humanas de maneira harmoniosa e autossustentável com a natureza é impossível. E isso explica por que nada realmente concreto foi feito até agora.

A urgência da questão climática se impõe para todos os ativistas e revolucionários e impõe também medidas que não estão fora da luta de classes e que abertamente afrontam os interesses do capital. Para defender a natureza contra o capital é preciso lutar por:

  • Prisão dos que provocam queimadas ilegais e confisco de suas terras.
  • Estatização do transporte, incluindo ferrovias, ônibus e serviços de carona.
  • Investimento em larga escala em transportes públicos ecológicos, acessíveis e
  • integrados.
  • Reestatização das empresas de eletricidade, gás e água. Investimento em massa em energias renováveis.
  • Estatização dos bancos, terrenos de especulação e grandes empresas de construção, a fim de construir habitações sociais de qualidade e realizar um programa de restauração dos edifícios existentes.
  • Nenhuma compensação para ex-proprietários de empresas estatizadas.
  • Controle e gestão democrática dos trabalhadores das indústrias estatizadas.
  • Um plano, liderado por trabalhadores, para fazer a transição de setores poluentes para indústrias não poluentes.

Ao mesmo tempo, sabemos que para uma solução final e definitiva é preciso tirar o poder econômico do controle da burguesia e para isso é necessário nos organizarmos com um programa revolucionário que defenda o socialismo como perspectiva para a juventude, os trabalhadores e o meio-ambiente ter realmente um futuro livre de opressão e exploração!

Somente quando o proletariado tiver o poder em suas mãos e o controle sobre o sistema produtivo é que poderemos utilizar todos os recursos humanos, científicos e tecnológicos para tirar a humanidade da barbárie e caminhar em direção a um futuro sem exploração ou destruição.

A única solução é a revolução!

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