Artistas do Metrô enfrentam o vírus, o desemprego e a repressão do Estado

Moisés Gabriel e Vinicius Camargo

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Nos últimos dias foi publicado um vídeo nas redes sociais com mais um relato de violência contra os músicos que trabalham no metrô de São Paulo, recolocando a questão da repressão absurda contra estes trabalhadores da arte que buscam se sustentar em São Paulo.

No dia 20 Março, quando iniciava ainda a implementação da Quarentena para prevenção contra a disseminação do novo Coronavírus, dois artistas músicos, Luciano Costa e Ricardo Rodrigues, foram violentamente agredidos na estação Bresser Mooca da linha 3 vermelha, por agentes de segurança do Metrô São Paulo.     De início, é importante lembrar ao leitor que a atividade dos músicos e quaisquer outros artistas dentro das estações e vagões do Metrô é proibida por lei, seguindo a linha geral da burguesia de restringir e reprimir da forma mais completa possível atividades artísticas em locais públicos. Os artistas de rua convivem cotidianamente com a ameaça e com a violência da repressão policial.

Os artistas estavam tocando no metrô, quando foram abordados pelos guardas que, de início, fizeram o procedimento padrão nestes ocorridos: pelas regras do Metrô São Paulo (de acordo com a Política Nacional de Mobilidade Urbana e o Decreto Nº 58.200, de 19 de abril de 2018)  quando os artistas são “pegos” pelos agentes de segurança, são imediatamente conduzidos até a saída da estação, perdendo assim o direito da sua passagem. E isso foi feito em relação aos dois músicos.

Porém, ainda dentro das normas estabelecidas pelo próprio Estado, quando paga e readquirida a passagem, os antes ditos “infratores” renovariam suas condições e deveriam passar a ser, na teoria, tratados como um usuário comum do meio de transporte, permitindo que fossem para seu destino livremente. O que significa que, em tese, nada poderiam fazer os guardas.

Isso não aconteceu e, frequentemente, não acontece na prática. Após a compra da passagem, e após ultrapassar a catraca, Luciano Costa foi covardemente agredido

Não é a primeira vez que isso acontece, particularmente com o Luciano. Nisso vê-se um caso bastante claro de racismo, dado que a incidência da violência contra ele é bastante maior do que a que verificamos com músicos brancos. Casos de agressões desse tipo são constantemente silenciados pelo próprio Metrô. São comuns também situações em que esses artistas são submetidos a regras “improvisadas”, “inventadas” por funcionários do sistema de segurança do Metrô São Paulo.

Após a agressão”, diz Luciano nas suas redes sociais, “o supervisor dos seguranças apareceu e tentou conversar conosco, sem passar pano é claro. Decidimos que queríamos ir à delegacia abrir um boletim, e eles nos levaram até lá. E lá, nos agrediram novamente, nos algemaram, e abriram um boletim de ocorrência contra a gente, onde se declararam vítimas. Em depoimento, os seguranças alegaram que solicitaram que saíssemos da estação porque nós dois estaríamos fazendo ‘bagunça’ no interior do vagão e que por conta da ‘pandemia do coronavírus estavam evitando aglomerações e bagunças no
interior das estações’. A justificativa dada por eles para a agressão, foi por termos 
reagido ao sermos impedidos de entrar no metrô, mesmo tendo comprado nossos bilhetes para ir embora”.


Esta posição dos guardas, além de não condizer com que está previsto na norma do metrô, se fosse verdadeira não justificaria em nada o abuso de poder, repressão e as ações covardes que tomaram esses agentes. O vídeo desmente todo o relato dos seguranças. A situação dos artistas do Metrô nesta pandemia Vale reforçar que as ações tomadas desde o começo da pandemia pelo governo de São Paulo diminuíram em muito a quantidade de pessoas no metrô (naquele momento o movimento tinha baixado sensivelmente) o que anula qualquer argumento de que os músicos provocassem Aglomeração. Aliás, o que já provoca cotidianamente em tempos normais a aglomeração no Metrô é a anarquia do trânsito, a falta de vagões, os problemas de manutenção, a falta de funcionários, a
concentração dos empregos em poucas regiões da cidade em contraposição a regiões inteiras que concentram a maior parte da população trabalhadora.

Em suma, o que provoca aglomerações é o sistema capitalista que trata os trabalhadores como sardinha enlatada em seus trens de Metrô. A aglomeração nos trens do Metrô que rapidamente voltou a ocorrer mesmo durante a “Quarentena” com certeza também não se dá por culpa de artistas, e sim pela necessidade que a burguesia tem de proteger a sacrossanta economia capitalista, os lucros dos patrões, mesmo se para isso for necessário sacrificar alguns milhares. O que provoca essa aglomeração mesmo durante a quarentena é a reabertura do comércio e da indústria e a falta de alternativa para os trabalhadores se sustentarem.


Além disso, se por um lado, no atual contexto, o estranhamento de ver artistas ainda atuando no metrô em tempos de grave pandemia é inevitável, por outro há a necessidade de ganharem dinheiro para sustento da família e filhos nessa situação, o que é o caso desses dois jovens. Isso tudo expõe outro grande problema dessa história: o quase inacessível auxílio emergencial de apenas 600 reais, mesmo para quem consegue, não é nem de longe uma política pública suficiente para manter seguros em casa os 11,9 milhões de desempregados e os 38,683 milhões de trabalhadores informais.


Luciano ainda relatou: “Tudo isso, não é metade do que passamos, além da humilhação dentro da estação, as várias horas algemados no frio em frente a delegacia sem poder entrar para denunciar a violência sofrida, ainda ter que ouvir do segurança que ele ganha bônus por me levar ao distrito, que tenho um ninho na cabeça, que sou um pedinte e muitas outras agressões que infelizmente não consegui gravar…”


Em resumo, diversos setores da burguesia estão “preocupados” e pedem para que todos voltem ao trabalho, mas não se você for artista, pois estes não geram lucro pra eles. Por outro lado, como grande parte da população, estes mesmos artistas em sua maioria não conseguiram o auxílio emergencial e mesmo os que conseguiram não podem sustentar a casa com esse valor irrisório. Precisam trabalhar e acabarão por arriscar a própria vida, além de enfrentar a repressão da segurança do Metrô. A luta é
contra o Corona Vírus e contra a repressão do Estado. Cenas como essa vão se repetir, como expressão da barbárie deste sistema.

Chamamos todos os músicos a se manifestarem imediatamente e se juntarem a luta pela derrubada deste governo: Fora Bolsonaro, por um governo dos trabalhadores sem patrões nem generais.

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