87 anos de Parque Industrial - viva Pagu!

Nathália Kons e Leo Mendes

arte

Hoje, faz 87 anos da publicação de um dos maiores romances antropófagos da literatura brasileira: Parque Industrial, de Patrícia Galvão, a Pagu, escritora, jornalista, tradutora, desenhista e militante comunista. Banida do PCB por ser trotskysta, em 1937, e a primeira militante mulher a ser presa no Brasil, em 1940, por sua participação em uma greve de estivadores durante o governo de Getúlio Vargas, Pagu era uma mulher incansável. Através do jornalismo, usa suas palavras para denunciar em seus textos a hipocrisia no cenário político e cultural e incitar os jovens a fazerem àquilo que era destinado apenas aos mais velhos: A analíse e a crítica.

Ao contrário do que muito se disse e se pensa, Parque Industrial está longe de ser um romance panfletário ou pertencente ao realismo proletário. Trata-se de uma obra altamente complexa no que diz respeito à elaboração estética, com a incorporação de recursos que a fincam no que havia de mais avançado no desenvolvimento da técnica literária no Brasil e no mundo. Entre esses recursos se destacam a construção de um narrador ou de uma narradora mínima, sintética, que organiza as cenas a partir de processos metonímicos típicos do modernismo brasileiro e do movimento antropófago. O Brás é a metonímia de São Paulo, que é a metonímia do Brasil e ao contrário do regionalismo em voga nos anos 30, ela não escolhe a casta mais retrógrada e sim a mais avançada como ator principal do processo histórico: a classe trabalhadora em ascensão, tomando consciência de si. 

Um romance que muitas vezes se aproxima do gênero dramático pela quantidade de diálogos em comparação com o narrador e em que grande parte da ligação entre as cenas está a cargo do leitor. Essa organização narrativa incita o movimento do leitor no processo de construção do sentido, retirando-o da posição confortável de mero observador para a de um ator ativo. Além disso, é bom de destacar a quantidade de frases substantivas, isto é, sem o uso de verbos (a não ser na forma nominal) e quase sem adjetivos, o que era um dos preceitos do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade. 

Junto a isso está a encenação da classe trabalhadora brasileira em sublevação, em especial no modo como as mulheres eram tocadas por esse processo; e é interessante a sensibilidade da autora em construir vários tipos femininos entre a ilusão romântica e a lucidez revolucionária. Não, não se trata de um romance realista, mas de um texto ímpar em nossa literatura que cometeu um pecado imperdoável para as belas letras e seus burgueses de plantão, usou toda a técnica mais avançada das artes, inclusive do cinema e da fotografia, e mesmo da vanguarda brasileira para construir uma narrativa que parte do ponto de vista da luta de classes no período do imperialismo.

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