La Mano de Díos

Fábio Ramirez
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                                                                              Imagem: O Globo

Maradona foi além das quatro linhas do campo. Futebolisticamente um dos maiores de todos os tempos e para muitos, o maior de todos depois de Pelé. Entretanto, sua gigantez foi desnudar as relações entre sociedade e futebol.

Ao contrário da lógica alienante que busca emancipar o futebol das relações sociais, “Dieguito” expunha os problemas e emoções do esporte mais popular do planeta. Quem disse que deuses do esporte devem ser neutros? Quem disse que ídolos do futebol não devem discutir política? “El Diez”, como era carinhosamente chamado, não só encarava os principais debates da sociedade como apresentava corajosamente sua visão, socialista. 

Maradona era um defensor da revolução proletária. Era amigo de Fidel Castro e se reuniu diversas vezes com Hugo Chávez, no auge da revolução venezuelana para prestar solidariedade. Carregava orgulhosamente emblemas do Che Guevara, como marca de rebeldia contra as injustiças da sociedade. Por inúmeras vezes, apoiou manifestações populares. 

O Camisa 10 da “Albiceleste”, conquistou um carisma único, principalmente entre os argentinos, porque tratava o futebol com alegria e diversão. Para Diego, o futebol não acabava com o apito do juiz, continuava nas rodas de conversa, nas piadas camaradas, nas mesas de bar, nas relações humanas. Falava o linguajar popular, por isso é um ídolo diferente, que despertava o sentimento de representatividade. Ousado, não deixava de alfinetar os conservadores, como no beijo que deu na boca do atacante Caniggia — em comemoração a um gol ou na declaração de apoio à Lula contra a condenação (sem provas) da operação lava-jato. 

Diego sofria das contradições do sistema, como seu vício em drogas e álcool, que causou o encurtamento de sua carreira. “El Pibe de Oro” (o garoto de ouro — outro apelido), foge do estereótipo atlético, tinha apenas 1,65 de altura e chutava com a canhota, mas tinha uma capacidade de drible, finalização, posicionamento e velocidade como poucos já alcançaram. 

A Copa de 1986 foi a coroa conquistada, simbolicamente arrancada da Inglaterra. Foi contra a Seleção inglesa, pela semifinal da Copa do Mundo, que Maradona protagonizou um dos lances eternos da história do futebol, cheio de misticismo. O gol de mão de Diego Maradona, que abriu o placar aos 5’ do 2.º tempo, é ironicamente chamado de “La Mano de Díos”, tida como uma espécie de ajuda divina para corrigir uma injustiça. Cinco minutos depois do lance, Maradona ampliou o placar com o gol que para muitos é mais bonito da história das Copas, uma arrancada impressionante do meio de campo, deixando todos os marcadores para trás até converter o gol da vitória. Poucos anos antes, em 1982, a ditadura argentina havia afundado o país na Guerra das Malvinas, contra o Reino Unido, numa tentativa populista e ufanista de sustentação do regime, que capengava. Para os argentinos, o confronto na Copa de 1986 era uma espécie de vingança e a brilhante atuação de Maradona fez reatar o orgulho nacional. Traçou laços afetivos entre o povo e “Dieguito”, o verdadeiro herói nacional que teria feito o que a ditadura fracassou — assim é entendido os fatos para “los hermanos” sul-americanos. Também, uma forma distorcida de expressar o desejo por soberania.

O escritor Eduardo Galeano dizia que “Diego era adorado não só por seus prodigiosos malabarismos, mas também por ser um deus sujo e pecador. O mais humano dos deuses”. No futebol moderno, balizado pela razão, lucro, eficiência e irrigado pela ideologia do negacionismo político, é cada vez mais difícil o surgimento de novos Maradonas. Uma coisa é certa, Diego Maradona mostrou que ídolos não são perfeitos e que a graça do futebol é a arte.

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