Busto de Lacerda nunca mais

Marina Stoiev*
lacerda

Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), especificamente no prédio da Reitoria, encontra-se uma memória de luta: um pedestal vazio com uma placa identificando como o busto de Flávio Suplicy de Lacerda. 

Flávio Suplicy de Lacerda foi reitor da UFPR de 1949 a 1964. No ano do Golpe Militar, por sugestão de Ernesto Geisel, Humberto Castelo Branco o convida a assumir o Ministério da Educação e Cultura. Dentre os diversos retrocessos que o mesmo apresenta, é um dos responsáveis pelo acordo MEC/Usaid e apresentou a Lei que ficou conhecida como Lei Suplicy, que regulamentava e proibia as atividades políticas desenvolvidas pelas organizações estudantis. 

Além disso, Flávio Suplicy tomou a decisão de cobrar pelo ensino noturno da UFPR, que começaria a vigorar a partir da aprovação dos novos estudantes da Universidade Federal do Paraná. Os estudantes do DCE, UPE e UPES fizeram um cerco, impedindo a realização da prova, que foi remarcada e acabou por acontecer, devido a presença da cavalaria. 

Seu busto foi colocado em 1968, e neste mesmo ano, retirado numa manifestação estudantil contra a ditadura e a privatização do ensino. A história se repete em 2014, ano que se completa 50 anos do Regime Militar, após a colocação conturbada do busto, os estudantes repetem o feito de retirá-lo. 

A pauta do busto sempre dividiu o Conselho onde, por pressão dos estudantes, o busto permanecia longe de seu pedestal. A história muda nesse ano. Com a eleição da chapa “Quem Sabe Faz a Hora” para o conselho, aprovaram a recolocação desse busto, desrespeitando as inúmeras lutas travadas pelo movimento estudantil contra as privatizações e precarizações do ensino público, e a história dos estudantes da Universidade Federal do Paraná que foram torturados ou desapareceram durante o regime. 

Nessa reunião dos conselhos, no dia 25/05, os conselheiros eleitos pelos estudantes acataram a proposta da professora Vera Karam, diretora do Setor de Ciências Jurídicas. Essa proposta levava em conta quatro marcos, que incluem:

O 1º seria na antiga sede da Polícia Federal que ficava na Rua Ubaldino do Amaral. O prédio hoje faz parte do patrimônio da UFPR. Nesse local chegaram a ser levados presos políticos dos anos de chumbo. Nele, seria feito um espaço para rememorar a luta desses brasileiros.

O 2º marco seria o busto de Suplicy de Lacerda: o busto retornaria ao local de origem, mas acompanhado de placa informando quem ele foi, sua participação na ditadura militar e os projetos que ele desenvolveu enquanto esteve à frente do MEC.

O 3º marco ficaria no pátio da Reitoria e seria em memória da resistência dos estudantes da UFPR que lutaram contra o regime militar. Aqui, a lembrança contaria com menção especial ao cerco realizado pelo regime contra os discentes que resistiam em nome da democracia.

Por fim, o 4º marco seria a instalação na Praça Santos Andrade, em frente ao Prédio Histórico da UFPR, de um busto do Professor José Rodrigues Vieira Neto. Comunista e professor de Direito Civil da UFPR, ele teve o direito de lecionar cassado, logo nos primeiros anos do golpe de 1964.

Nós, da Liberdade e Luta, entendemos que a votação a favor de recolocar o busto é uma afronta a todo movimento estudantil, que lutou ferrenhamente contra a ditadura militar. A colocação de outros marcos ou uma placa explicativa não retira o significado do busto de Flávio Suplicy de Lacerda. É desprezar a luta de tantos estudantes por uma educação pública, gratuita e para todos.

*militante da Liberdade e Luta, estuda Ciências Sociais na UFPR

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