Revolução e guerra civil na Espanha 1936-1939

Serge Goulart
guerracivilespanha

Julho é um mês de celebração de várias revoluções, e entre elas aquela que ficou conhecida como guerra civil espanhola.

Dedico esse artigo, e as indicações
que faço aos jovens revolucionários
que precisam conhecer e se orgulhar
de nossa história como classe.

Julho!

Estamos no mês em que comemoramos a revolução sandinista de 19 de julho de 1979, o início da Grande Revolução Francesa, em 14 de julho de 1789, e em que homenageamos a revolução espanhola de 1936.

Em 17 a 18 de julho de 1936, o general Francisco Franco lançava o exército colonial espanhol estacionado no Marrocos contra o governo republicano eleito, a Frente Popular. A Espanha vivia uma situação revolucionária.

Da África para a Espanha, Franco e suas tropas foram transportados por aviões e barcos de Hitler e Mussolini. Começava a guerra civil, que só terminaria em 01 de abril de 1939 com a implantação de um regime fascista. O apoio nazista e fascista continuaria até o final da guerra civil, que deixou meio milhão de mortos.

A revolução espanhola e a guerra civil despertaram solidariedade, paixões e entusiasmo como poucas vezes se havia visto no mundo. Romances, poemas, músicas, filmes, quadros e esculturas floresceram tanto cantando o heroísmo e a luta do povo espanhol contra o fascismo como denunciando dolorosamente os horrores das atrocidades cometidas pelos fascistas.

Ernest Hemingway escreveu sua obra-prima (que viria a modificar inclusive a escrita do jornalismo contemporâneo), “Por quem os sinos dobram”, durante os quatro anos que viveu na Espanha como correspondente e em que lutou ao lado dos republicanos.

A incrível guerra civil espanhola teve um enorme impacto no Brasil. Não só levando militantes de esquerda e republicanos, como Apolônio de Carvalho, a integrar-se nas “Brigadas Internacionais” que se formaram em dezenas de países, mas também levando personagens de romances brasileiros a lutar na Espanha.  Vasco Bruno, o personagem do romance “Clarissa”, de Érico Veríssimo (um dos mais importantes escritores brasileiros), também se alista nas “Brigadas Internacionais” e, no excelente romance “Saga”, vai à Espanha lutar.

A terrível guerra civil provocada pelos fascistas tem aspectos extremamente dolorosos, como mostra o extraordinário quadro “Guernica”, de Pablo Picasso. Ele é uma das obras mais conhecidas do Cubismo e um dos mais famosos quadros de Picasso. Ele mostra os efeitos do bombardeio da cidade de Guernica em 26 de abril de 1937 pelos aviões alemães da Legião Condor, que destruíram quase completamente a cidade no País Basco. O quadro está no Museu Nacional Reina Sofia, em Madri e vale algo como US$180 milhões.

guernica
(http://www.museoreinasofia.es/)


Em 1930 terminava na Espanha a ditadura do general Primo de Rivera. A luta entre republicanos e monarquistas se agudiza. O rei Afonso XIII convoca eleições municipais em abril de 1931. Os monarquistas ganham, mas os republicanos conquistam a maioria nas grandes cidades. Manifestações populares exigem a instauração da República. O rei abdica e é proclamada a Segunda República. Em seguida, uma Assembleia Constituinte decreta a separação entre Igreja e Estado e dissolve a Companhia de Jesus (Ordem dos Jesuítas). A Igreja católica é proibida de dedicar-se ao ensino.

Em 1933, os anarquistas, muito fortes, fazem campanha pelo voto nulo e a direita ganha as eleições. As medidas do novo governo provocam uma insurreição. Nas Astúrias os operários estabeleceram o que se chamou de Comuna das Astúrias, mas a insurreição é derrotada e milhares são presos.

O governo é um fracasso e, em 1936, uma aliança de socialistas, comunistas e republicanos burgueses ganha as eleições. Começa o governo da Frente Popular. Franco o afogaria em sangue estabelecendo sua ditadura por 38 anos (1939 – 1977).

A Frente Popular, apesar do armamento geral dos operários, de insurreições na Catalunha e outras partes, não queria romper com os burgueses republicanos. E, sob pressão de Josef Stálin, o PC se recusa a decretar a Reforma Agrária, o que tiraria toda a base social de Franco, aliado dos monarquistas e latifundiários. Isso foi um dos elementos chaves para a derrota da revolução.

Na derrota da revolução espanhola o PC Espanhol teve um papel chave. O PCE atacou com a polícia e seus agentes assassinos os revolucionários de todos os matizes que não concordavam com sua política de submissão à burguesia e manutenção do capitalismo. Dirigido pela polícia política de Stálin, que havia enviado enormes quantidades de agentes, mandou prender, fuzilar, assassinar e torturar os opositores de esquerda.

O chefe dos agentes da KGB na Espanha foi Antonov-Ovsenko, que havia participado ativamente da tomada do poder na Rússia em 1917 e é retratado no romance de Leonardo Padura, “O homem que amava os cachorros”, como o personagem Grogoriev, já um stalinista cínico e absolutamente sem escrúpulos.

Andreu Nin, o líder do POUM, foi um dos muitos sequestrados e assassinados pelos agentes de Stálin, como anarquistas, trotskystas, sindicalistas e socialistas de esquerda.

No livro de Leonardo Padura há um diálogo entre Grigoriev e Jacques Monard (Jacques Mornard no livro), aliás Ramon Mercader, que viria a assassinar Trotsky no México, que é ilustrativo do espírito e ação do stalinismo na revolução espanhola.

“- Vai me dizer agora o que aconteceu a Andreu Nin? Perguntou quando, finalmente, conseguiu falar.

Grigoriev sorriu, negando com a cabeça.

– Que teimoso … O que você quer que eu diga? Aquele catalão era tão louco que não confessou. Esgotou a paciência de todo mundo e …

– Eu sabia que não ia confessar – disse, aproximando de Grigoriev a caneca de cerveja. O mentor verteu nela um pouco de vodca. – Nem que o encharcassem de vodca …”

Stálin vendeu armas para o governo da Frente Popular e, com isto, obteve a participação do PCE no governo, que controlou, de fato, a luta contra Franco e preparou a derrota da revolução. Muita gente, entretanto, não compreendeu isso e acreditava que Stálin e o PC Espanhol lutavam pela revolução socialista.

Stálin era contra a vitória de uma revolução socialista na Europa. Sua política de alianças com o que ele chamava de “imperialismos democráticos” (EUA, Inglaterra, França) não podia permitir isto.

Em 1939, o mesmo ano da vitória do fascismo na Espanha e do esmagamento da revolução sob o tapete de 500 mil mortos, Stálin assina um vergonhoso e trágico pacto de não agressão com Hitler. Aí os dois acertavam:

– Cinco anos de paz entre Alemanha e a União Soviética;

– Invasão e partilha da Polônia (que seria dividida entre as duas nações), dos Países Bálticos e da Finlândia.

Não é preciso dizer que isto é o contrário de toda a política externa revolucionária conduzida por Lenin e Trotsky desde a Revolução de Outubro, nem que é a mais pura negação do marxismo a serviço dos interesses diplomáticos e materiais de uma burocracia que estava inaugurando os Processos de Moscou, onde toda a direção e a velha guarda bolchevique foi dizimada, assassinada acusada de ter se vendido e trabalhado para o nazismo, o fascismo e o Mikado japonês.

Uma entrevista do próprio Stálin revelava o que pensava e dizia este adepto da “coexistência pacifica” com o imperialismo. Eis um trecho da entrevista famosa:

“Howard: Esta sua declaração significa que a URSS abandonou em todos os níveis seus planos e intenções de provocar uma revolução mundial?

Stalin: Jamais tivemos planos ou intenções deste tipo.

Howard: Penso, então, sem dúvida, que grande parte do mundo estava distraído durante muito tempo com uma impressão diferente?

Stalin: Isto é produto de um mal-entendido.

Howard: Um trágico mal-entendido?

Stalin: Não, cômico. Ou, talvez, tragicômico …”

(Roy Howard, Entrevista com Stalin, Internacional Comunista, março/abril de 1936).

A revolução foi afogada em sangue por Franco, ajudado por Hitler e Mussolini, sob os olhares distraídos dos “imperialismos democráticos” aliados de Stálin, que se declararam “neutros”. Guernica, o famoso quadro de Picasso, mostra o bombardeio e a destruição desta cidade basca pela Legião Condor dos nazistas e todo o horror que o capitalismo é capaz de desencadear para manter seus privilégios de classe e a exploração e opressão sobre toda a Humanidade.

A derrota da revolução espanhola e a ascensão do fascista Franco prepararam o terreno para Hitler iniciar a 2ª Guerra Mundial apenas um ano depois.

A derrota da República espanhola pelos fascistas com o massacre de Barcelona de março de 1939, onde 30 mil revolucionários foram executados, selou a vitória de Franco e incentivou Hitler a desencadear a II Guerra Mundial em 01 de setembro do mesmo ano. Ele começou invadindo a Polônia, como acertado com Stálin, mas depois invadiu a URSS mandando o pacto de não-agressão para o devido lugar e fazendo Stálin entrar em pânico desesperado.

A Espanha de Franco se manteve formalmente neutra durante o conflito porque na realidade não tinha meios, nem econômicos, nem sociais, de entrar em guerra alguma. Ensanguentada e exaurida, a Espanha levaria 36 anos para ver-se livre de Franco, que morre em 20 de novembro de 1975. Começaria, então, outra revolução espanhola, que seria contida pelos mesmos atores, o PCE e PSOE, assinando o Pacto de La Moncloa com o rei nomeado por Franco.

Como resultado deste pacto as instituições franquistas e monarquistas e os privilégios da Igreja Católica, sua aliada e esteio, foram preservados. Ainda hoje, em 2016, esta Igreja reacionária segue militando. Este ano, a Conferência Episcopal da Espanha autorizou a Igreja dos Jerónimos a homenagear Francisco Franco e todos aqueles que propiciaram a “salvação de Espanha” comemorando o 18 de julho, data do levante fascista, contra a Segunda República, que iniciou a guerra civil.

Ainda hoje a revolução e a guerra civil na Espanha continuam a ser revividas na arte e na política. Em 1995, o cineasta inglês Ken Loach lançou um belíssimo filme chamado “Terra e Liberdade”, baseado no livro “Homage to Catalonia” (Homenagem à Catalunha), de George Orwell, em que este relata sua participação na guerra civil espanhola e denuncia os crimes stalinistas que ajudaram a massacrar a revolução.

Músicas como “Ay, Carmela” ou “Si me quieres escribir (ya sabes mi paradero)” estão sendo, de novo, cantadas pelos operários e jovens nas manifestações dos últimos anos na Espanha.

O heroísmo, a determinação e as iniciativas da classe operária da Espanha jamais serão esquecidas. Elas estão nas maravilhosas linhas escritas por Felix Morrow no livro “Revolução e Contrarrevolução na Espanha” e, de outra forma, no maravilhoso romance “Por quem os sinos dobram”, de Ernest Hemingway, em que narra a história de Robert Jordan, um jovem norte-americano que participou das Brigadas Internacionais e que, conhecedor do uso de explosivos, recebe a missão de explodir uma ponte por ocasião de um ataque a Segóvia. Na verdade, o livro narra a experiência pessoal de Hemingway como participante voluntário da Guerra Civil Espanhola.

Viva o povo revolucionário espanhol!
Abaixo a monarquia! Viva a República!
Viva a revolução socialista Internacional!


Artigo originalmente publicado em 18 de julho de 2016.

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