A luta das mulheres mexicanas pela revolução e o que podemos aprender

Bruna dos Reis
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No último sábado (15/07), a Liberdade e Luta reuniu um pouco mais de quarenta jovens no auditório do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Joinville e Região (Sinsej) para, a partir do informe de Ana Karen, militante da Izquierda Socialista, discutirem a história da revolução no México e como se deu a participação das mulheres no processo revolucionário do país, desde o início do século até os dias de hoje. 

Leia, abaixo, um resumo do informe de Ana:

O início da revolução

A Revolução Mexicana de 1910 foi uma revolução democrática burguesa. Dos cerca de 10 milhões de habitantes que o país tinha na época, 90% vivia no campo, em condições semifeudais. As mulheres, nesse momento, desempenhavam todas as funções domésticas. Os fazendeiros criaram as “tendas de raya”, espécie de mercearia que vendia as mercadorias de sobrevivência a preços muito altos. O salário que os homens recebiam não era suficiente e as famílias se endividavam. As mulheres e as crianças se incorporaram ao trabalho, mas não recebiam salário. Seu pagamento era apenas o abatimento nas dívidas familiares. O abuso sexual das mulheres também servia como pagamento das dívidas em vários casos. Nas cidades em que a forma de produção capitalista se desenvolveu mais, a inserção das mulheres no mercado de trabalho foi baixíssima.

Os camponeses foram recrutados e armados e isso resultou em uma das revoluções mais violentas do continente americano. Assim que os campones e operários derrubam Porfirio Díaz Fue da presidência, Francisco Madero assume o poder do Estado. Para retomar o controle do mesmo, tenta desarmar os trabalhadores. Eles haviam derrubado o presidente com sonhos de abundância e felicidade. Mas Madero era de uma família de donos de terras e minas e, pela classe que representava, realizar a reforma agrária e melhorar as condições de vida dos trabalhadores não eram suas prioridades.

Como o povo estava em armas, seu governo enfrentou ocupações de terras e greves nas fábricas. O governo de Madero estava entre duas forças - a burguesia reacionária e os trabalhadores. A burguesia nacional e imperialista o consideravam muito frágil para manter o regime, então promoveram um golpe de Estado dirigido por Victoriano Huerta. Mas o efeito foi reverso: mais instabilidade se instaurou no país. Os camponeses voltaram a pegar suas armas e a revolução chegou ao seu auge.

Os trabalhadores se dividiam em três grupos

  • Camponeses do sul: O principal líder era Emiliano Zapata. Seu programa era democrático nacional - lutava por reforma agrária, direitos econômicos e políticos dos trabalhadores. Foi o programa que melhor representava os interesses das massas oprimidas, ainda que não apontasse a superação do capitalismo, indiretamente pode ser considerada uma luta anticapitalista e anti-imperialista. Apesar de ser avançado, não se incluia nele nenhuma reivindicação da luta pela igualdade para as mulheres.
  • Camponeses do norte: O principal líder era Pancho Villa, chegou a ser o maior exército do país. Onde chegava distribuía terras.
  • Constitucionalistas: O principal líder era Venustiano Zarranza, representante da burguesia do norte. Inicialmente havia um acordo entre eles e os camponeses, mas que logo se rompeu pela contradição de classe.

A história de luta das mulheres mexicanas

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Durante esse período, o papel da mulher foi importante. Muitas delas alimentaram e cuidaram da saúde dos soldados. Outras carregavam e manejavam as munições, estavam armadas com fuzis, cuidando da retaguarda do exército. As mulheres soldadas ficaram conhecidas como Adelitas, por causa de uma canção composta a uma delas, Adela Velarde Pérez (https://goo.gl/GykwMC).

Outra lutadora importante foi Petra Herrera, que se disfarçou de homem para poder combater, utilizou o nome de Pedro Herrera e teve um grande reconhecimento de seus companheiros de batalha. Apesar da participação ativa das mulheres, nenhum desses grupos de luta levantou as demandas específicas de gênero. Entre 1910 e 1917, a luta se concentra unicamente no direito pela terra.

A situação muda no período seguinte (1918-1922). Inicia um processo de organização da mulher e sua integração na luta política e social. Sob a influência da literatura anarquista, lutavam pela igualdade de direitos e se espalharam por diferentes estados, onde se formavam “clubes de luta pelo direito da mulher”. Esses clubes se fortalecem com a chegada das sufragistas dos EUA. Não eram feministas burguesas, já que acreditavam na luta revolucionária, anarquista e socialista. 

Em Guadalajara, lançam um jornal chamado “Iconoclasta”, que se tornou o órgão central do feminismo radical. Na Cidade do México existia o grupo “Alma Roja”, composto por bordadeiras, operárias têxteis e telefonistas. Esses grupos aos poucos foram se aproximando do Partido Comunista Mexicano e, em setembro de 1919, se forma o Conselho Nacional de Mulheres, onde várias mulheres começam a militar no PCM. Destacam-se aqui Elena Torres e Refúgio García. 

O programa contemplava a luta por igualdade salarial, direito ao emprego, licença maternidade, a construção de dormitórios e refeitórios para trabalhadoras, igualdade dos direitos cidadãos e reformas no código civil. Em 1923, 100 delegadas de todo país realizam o Congresso Feminista, em que a pauta central foi a modificação no código civil, alcançada em 1928.

O Congresso Feminista de Yucaton, em 1916, preparou as bases para que o estado se tornasse um dos mais progressistas - reformou o código agrário e ampliou o civil. Em 1923-25, neste estado havia igualdade política para as mulheres, que podiam votar e ser votadas. Nacionalmente esse direito só foi implementado em 1953.

A Frente Única pelos Direitos da Mulher que, durante o governo de Lázaro Cárdenas, abarcava diversas pautas das mulheres, mas acabou se centrando na luta pelo direito ao voto e acabou se dividindo com uma clara distinção de classe entre as mulheres: parte delas aderiu ao Partido Nacional Revolucionário e outra ao Partido Comunista Mexicano. Nos anos 40, devido a forte influência do stalinismo em ambos partidos, as demandas das mulheres deixam de ser pautadas.

Nos anos 70, o feminismo burguês chega ao auge no México. Ele congrega as mulheres de classe média, que tinham conseguido ter acesso a universidade. Em 2014, são aprovadas cotas para mulheres nas câmaras de deputados e senadores (50% das cadeiras para mulheres e 50% para os homens). É também nesse período que começa a surgir no México o fenômeno do desaparecimento e morte de mulheres nos estados que fazem fronteira com os EUA. Entre 1993 e 2014, pelo menos 1530 mulheres foram vítimas.

A violência contra a mulher e a barbárie atual no México

Ou seja, dentro do capitalismo o espaço das mulheres sofreu algumas mudanças na "democracia" burguesa do México. Mas essas mudanças não evitaram a barbárie que as mulheres mexicanas vivem diariamente. Segundo dados da ONU, o país é um dos 20 mais violentos contra as mulheres. Quando se trata de igualdade salarial, se encontra na posição 128, num ranking de 144 países. Nessa mesma relação de países, o México subiu da posição 71 para a 66 quanto à desigualdade em educação e política entre homens e mulheres. A participação econômica das mexicanas lhes coloca em 122º lugar. O trabalho não remunerado das mulheres, o trabalho doméstico, corresponde à 21,7% do PIB do país.

A cada 6,4 minutos, uma mulher mexicana sofre violência sexual. Aproximadamente 120 mil ao ano. O México, por ser um país que faz fronteira com os EUA, muito corrupto e comandado pelo narcotráfico, o tráfico de pessoas para a escravidão sexual é muito frequente. Existem de 15 a 20 zonas com alta incidência desse crime. Das 6.448 mulheres que foram assassinadas no país entre 2013 e 2015, 1045 eram do Estado do México, o epicentro da violência contra a mulher. 

A partir de 2015, 11 municípios do Estado do México declararam Alerta de Violência de Gênero. Trata-se de um mecanismo que visa garantir às mulheres uma vida livre de violência. No entanto, suas ações são: anúncios sobre o tema, reforço das rondas policiais, da iluminação pública, instalação de câmeras de vídeo e botões de emergência, linhas de apoio às vítimas, vagões de ônibus e metrô só para mulheres e distribuição de apitos. Essas ações não têm se mostrado efetivas. 

No México, já é uma situação “normal” que uma mulher esteja andando na rua e, em qualquer momento de distração, seja tocada, abusada sexualmente. Nas escolas e trabalhos, para além das brincadeiras machistas, é comum que professores e chefes exijam favores sexuais para que elas não reprovem ou percam seus empregos. Mas isso não é o pior que pode acontecer a uma mulher ou uma menina mexicana. Há uma preocupação diária ao sair de casa, sem saber se voltará.

Uma jovem de 22 anos foi enforcada com um cabo telefônico na universidade mais importante do México, a UNAM. A Procuradoria Geral da Justiça publicou no Twitter, sobre o caso, que ela era é uma má estudante, que morava com o namorado sem casar. Insinuaram, por questões morais, que ela mereceu a morte.

Em junho passado, uma menina de 11 anos voltava da escola com o pai de bicicleta. Começou a chover e o pai, para protegê-la da chuva, a colocou no transporte público. A menina foi violentada e assassinada dentro do transporte público. Por se tratar de uma criança, a lei determina que a busca seja imediata, mas a polícia demorou horas para iniciar a busca, alegando que ela devia estar na casa do namorado. Uma menina de 11 anos. 

Os dados e casos deixam claro que não há reformas dentro do Estado capitalista, que lucra com a desigualdade entre os seres humanos e, portanto, entre homens e mulheres. O machismo, assim como outras opressões, fazem parte da podre ideologia que ainda mantém uma elite minoritária no controle da barbárie que afeta a maioria da humanidade. Não interessa aos Estados capitalistas modificar as bases sociais que mantém o machismo, pois essas bases mantém as estruturas de poder como estão.

Portanto, uma verdadeira mudança deve arrancar pela raiz qualquer vestígio da sociedade capitalista. É preciso avançar para a construção de uma sociedade socialista, onde homens e mulheres tenham as mesmas oportunidade de desenvolvimento. Devemos lutar juntos pela emancipação da classe trabalhadora e das mulheres.

A Liberdade e Luta lançou, durante a atividade, o primeiro Acampamento Regional de Joinville, que acontecerá entre os dias 8 e 10 de setembro. Convidamos todos que querem se organizar contra esse sistema de barbáries que é o capitalismo a se inscreverem no acampamento. Em 2015, logo após a morte pelo Estado dos 43 estudantes de Ayotzinapa, no primeiro Acampamento Revolucionário que realizamos, Jose Luiz Hernandez nos disse uma frase que jamais esqueceremos: “Vamos mostrar ao capitalismo que ele mexeu com a geração errada!”.

Fotos: Kályta Morgana de Lima

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