Charlottesville: o Nazismo não é "de esquerda"

Daison Colzani
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Charlottesville e a questão racial

Na sexta-feira (15/08), grupos de extrema-direita se manifestaram nos EUA na cidade de Charlottesville, estado da Virgínia. Diante dos planos da cidade de retirar uma estátua do General Confederado Robert E. Lee de um parque municipal, grupos de supremacistas brancos, neonazistas, Ku Klux Kan (KKK) e organizações de direita alternativas organizaram uma marcha. O Parque que antes se chamava Park Robert E. Lee foi rebatizado como Emancipation Park.

Uma série de confusões se desenvolveu desde o episódio. Uma das mais perigosas é associar o nazismo à esquerda, sob a principal justificativa que o partido de Hitler tinha “Nacional Socialista” em seu nome.  Nada mais absurdo. Adolf Hitler, em sua obra “Minha Luta” (Mein Kampf, em alemão), que foi usada como guia político do movimento nazista, faz dezenas de menções pejorativas aos comunistas, a quem chega a se referir como “piolharia”. É necessário entender que, se o nome confunde, o programa nazista não deixa dúvidas do seu caráter de direita e reacionário.

É necessário entendermos o significado desses movimentos e o seu sentido histórico. Devemos combater aqueles que se utilizam da confusão para tratar a questão como violência comum. O que fizeram os militantes e ativistas contrários aos supremacistas foi um ato de autodefesa, rememoravam a história e a violência que esses grupos defendem.

Ao contrário do que Donald Trump vem afirmando, o que aconteceu não tem “culpa” dos dois lados. O que se viu nas ruas de Charlottesville foi uma manifestação de ódio racial, a demonstração da intolerância. A violência desses grupos não é de hoje e não era nenhum segredo. Aliás, o FBI enviou, em maio, um relatório ao governo americano informando que esse tipo de grupo é o mais violento entre todos os presentes nos EUA. Nos últimos 16 anos, foram 49 homicídios em 26 ataques.

A intensidade da violência desses grupos coincide com o movimento de vários estados do sul que têm diminuído o número de símbolos que remetem aos confederados. Em 2001, no Mississipi, o Governo Estadual aprovou um plebiscito para a mudança na bandeira do estado, que carregava a bandeira de batalha confederada. A mudança teve baixa participação e foi rejeitada, mas ao colocar a possibilidade em questão, em um dos estados que havia se separado do norte na guerra civil, foi o início de várias mudanças que estariam por vir, era o primeiro passo significativo das últimas décadas para superar as marcas deixadas desde a secessão.

É importante entender alguns elementos para continuar esse debate.

O que foi o nazismo?

awchwitzO Nazismo é uma ideologia extremamente reacionária e de ultra-direita responsável pelo extermínio físico de milhões de pessoas. O Partido de Hitler utilizou o sentimento pós primeira guerra mundial e a depressão econômica que afetava a Alemanha para defender políticas nacionalistas e que elegiam os judeus, comunistas e outros elementos “não-germânicos” como inimigos da nação e responsáveis pela depressão. É claro que Hitler contou com o auxílio da política conciliadora de Stalin e do Partido Comunista Alemão. Para se ter um ideia do tamanho da traição stalinista, às vésperas da 2ª Guerra, foi assinado o Pacto Molotov-Ribbentrop, que propunha, entre outras coisas, paz entre os dois países por 10 anos.

Em junho de 1941, a Alemanha nazista iniciou a Operação Barbarossa e invadiu a URSS, quebrando o pacto que estabeleceram dois anos antes. Os nazistas usaram os stalinistas para fazer uma dura campanha de perseguição aos comunistas em território alemão e em seguida se sentiram confortáveis para romper o acordo de não agressão. Assim, com o apoio de Moscou, os nazistas assassinaram milhares de militantes. Tão logo se sentiram seguros para abrir uma frente contra URSS, eles o fizeram.

Hitler e todos os nazistas sempre abominaram os comunistas e os perseguiam tanto quanto perseguiram os judeus. Entre outras citações em sua obra, Hitler coloca bem a sua posição e do Partido Nazista em relação aos comunistas: “Se o judeu, com o auxílio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana” (p. 32). Antes de utilizar o nome nacional-socialista para associar o nazismo à esquerda é fundamental conhecer o seu programa.

Esse é o legado nazista, essa é sua história e serve de base ideológica para além da própria história americana de segregação e ódio racial. As origens do KKK, supremacistas e dos nazista é muito semelhante é necessário compreender isso.

Qual o significado da Guerra Civil Americana?

A Guerra da Secessão (1861-1865) dividiu os EUA entre o norte industrial e o sul latifundiário e escravagista. Mesmo com a independência americana no final do século XVIII, a Inglaterra ainda possuía forte influência em sua antiga colônia, em especial nos atrasados estados do sul. A burguesia nativa em ascensão pretendia terminar com isso, foram os primeiros passos para a guerra civil.

A eleição do republicano Abraham Lincoln para a presidência dos EUA, em substituição ao democrata James Buchanan Jr., agravou ainda mais a situação. É importante destacar que, nesse período, o recém nascido Partido Republicano representava as ideias mais progressistas da época, enquanto os democratas, com uma base política muito forte no sul escravagista, eram os representantes das idéias mais atrasadas e ligadas à coroa inglesa.

Lincoln entendia a necessidade de dar fim à escravidão para derrotar o sul, mas o então presidente dos EUA desejava fazer isso sem causar uma ruptura definitiva do país. Sua primeira ação foi a elaboração de um documento chamado de Proclamação da Emancipação. Entre todas as batalhas travadas, a de tratar os estados confederados como parte do EUA foi fundamental para derrotar o separatismo e, com a aprovação da 13ª emenda, pôr fim a escravidão. É importante entender que os estados confederados, além de elegerem um presidente, tinham formado um parlamento e um governo a parte do norte. Nesse sentido, Lincoln foi extremamente hábil ao manter unificados os estados do sul e norte após a guerra civil.

Pós Guerra - a luta antidiscriminação

Embora a escravidão tenha sido abolida, a discriminação continuou e deu início a grupos como o Ku Klux Khan e as políticas de segregação racial. As leis de Jim Crow, dos anos 1870, promulgadas nos estados do sul, atacaram direitos de grupo étnicos não brancos (negros, asiáticos, latinos...). A partir dessas leis, os espaços públicos eram divididos, sempre privilegiando os brancos, inclusive com escolas públicas separadas. Por décadas as políticas de segregação separaram politicamente o país.

olimpicsA luta pelos direitos civis, com expoentes políticos como Malcom X e Martin Luther King, atraíram a atenção do mundo sobre a questão nos EUA. Mas não foram só eles. O famoso boxeador Muhammad Ali foi perseguido politicamente e teve seu título mundial de peso-pesado cassado, além de ter sido proibido de lutar por 3 anos e meio por se recusar a lutar na guerra do Vietnã. "Por que me pedem para vestir um uniforme e me deslocar 10.000 milhas para lançar bombas e balas no povo marrom do Vietnam, enquanto os negros de Louisville são tratados como cachorros, sendo-lhes negados os mais elementares direitos humanos? Não, não vou viajar 10.000 milhas para ajudar a assassinar e queimar outra nação pobre para que simplesmente continue a dominação dos senhores brancos sobre os povos de cor mais escura mundo a fora. É hora de tais males chegarem ao fim.” Ali foi o primeiro esportista de destaque a tomar atitude semelhante. Em seguida, os atletas Tommie Smith e John Carlos, após vencerem a disputa nos 200m rasos nas olimpíadas do México, em 1968, fizeram a saudação Black Power, o que lhes rendeu o banimento dos jogos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

Mas, certamente, o mais notável acontecimento da luta pelos direitos civis foi o surgimento dos Panteras Negras. Nascido como Partido Pantera-Negra para Autodefesa, foi uma extraordinária organização que reuniu milhares de pessoas no combate ao racismo por direitos iguais e com um viés de combate ao capitalismo. E justamente por seu caráter de classe é que, sem dúvidas,  foi a mais ameaçadora organização que surgiu nos EUA. Na iminência de uma fusão entre os Panteras Negras e grupos latinos e outros que sofriam com a segregação racial e social, o FBI, em parceria com a polícia de Chicago, assassina Fred Hampton, um dos mais importantes membros dos Panteras Negras e organizador da aproximação desses grupos que formariam a maior organização política de classe que já existiu nos EUA. Embora os Panteras Negras tenham sido perseguidos e assassinados, a sua importância histórica nunca será esquecida.

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Charlottesville hoje

É esse legado que os contramanifestantes de Charlottesville estavam defendendo. Eram militantes dos direitos civis que não esqueceram a história e o significado da Guerra Civil Americana, da luta pelos direitos civis, que sabem o que realmente significa o nazismo e todo o atraso que ele representa. É por esse motivo que Trump, o representante do atraso político, coloca panos quentes no que está acontecendo e acusa “os dois lados”.

A direita supremacista é fraca, sua única arma é a violência. James Alex Field, o motorista que atropelou 20 pessoas e assassinou a ativista Heather Heyer, é um exemplo clássico disso. Com um histórico de violência, inclusive contra a sua mãe que tem uma deficiência motora e necessita do uso de uma cadeira de rodas, James admirava Hitler e considerava os feitos em campo de concentração mágicos. Esse é o retrato dessa direita raivosa e delirante.

Nosso combate segue pelo fim desses horrores, pelo fim da exploração do homem pelo homem, pelo fim do capitalismo. Somente uma sociedade sem divisão de classes será capaz de superar todas essas mazelas. Nossa tarefa é seguir nessa batalha, estudando, entendendo e explicando para aqueles que fazem confusões como “o nazismo era de esquerda”, que nosso inimigo é o capital e que nós, homens e mulheres de todas as cores, devemos nos unir contra nosso adversário comum, o capitalismo.

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