As lições da Guerra Civil do Vietnã em 1968

Aline Seitenfus

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O ano de 1968 foi histórico para os jovens e trabalhadores do mundo todo, porém, para os vietnamitas representou o começo do fim da dominação dos Estados Unidos. Devastado pela Guerra Civil, a Ofensiva do Tet, foi fundamental para demonstrar a força dos que lutam por liberdade diante do ataque atroz do capitalismo. Conhecer, entender e aprender com os acontecimentos do Vietnã é tarefa de todo jovem revolucionário que quer colocar abaixo este sistema.

Independência da França

A Guerra Civil do Vietnã está diretamente ligada com os acontecimentos que deram fim à dominação francesa sobre o país. Em meio a luta pela libertação, a partir de 1930 com a criação do Partido Comunista Indochinês liderado por Ho Chi Minh, aconteceu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Mesmo com a ocupação japonesa, os franceses continuaram administrando as terras da Indochina.

Até o fim da Segunda Guerra, acontecimentos envolvendo petróleo e a dominação da Ásia e Pacífico levaram os japoneses a entrarem num embate contra os Estados Unidos, que decidiu que o território deveria ser seu. Com a derrota dos japoneses em 1945, os franceses voltaram com tudo na reivindicação de “suas” posses. A luta anticolonial se intensificou e em 2 de setembro de 1945 Ho Chi Minh declarou a independência do Vietnã. Mas nada era tão simples assim.

Foi durante o período de luta pela liberdade do Vietnã que o país se dividiu em dois: Vietnã do Norte e Vietnã do Sul. O conflito no país estava agora no meio de outra disputa internacional: a Guerra Fria. A parte Norte foi apoiada pela União Soviética. A parte Sul, que pertencia ainda aos franceses, recebeu o apoio dos EUA que temia o avanço comunista depois da Revolução Chinesa. Em 7 de maio de 1954 a França foi finalmente derrotada e os EUA passou a exercer uma pressão muito maior sobre o Vietnã do Sul.

É necessário ressaltar que a divisão deveria ser extinta com a realização de eleições gerais em 1956, contudo, a União Soviética estava preocupada com um possível enfrentamento direto com os Estados Unidos e dissuadiu Ho Chi Minh de avançar sobre o Sul - dominado por Ngo Domh Diem, que era totalmente contrário às políticas de reformas agrárias e ao “comunismo” do Norte.

Anos de barbárie

vietnamVietconginterrogation1967.jpgO que aconteceu após isso foram anos de barbárie patrocinada e praticada pelos imperialistas da América do Norte. Se em um primeiro momento os EUA se limitava a “orientar” Diem, não demorou para tomar o controle da situação e enviar armamentos e soldados a rodo para lutar contra a “ameaça comunista”.

O auge da ocupação norte-americana foi em 1969, quando havia 542 mil soldados lutando contra o Vietnã do Norte e a Frente de Libertação Nacional (FLN). Não havia igualdade. Não havia qualquer traço de equilíbrio de forças. Além do enorme aparato militar, os EUA utilizaram bombas químicas, como o Napalm, para queimar não só a vegetação, mas também os que lutavam contra a dominação americana. O abuso de armas químicas foi tão absurdo que ultrapassou a quantidade utilizada durante toda a Segunda Guerra. Foram 15 quilos de bombas por civil.

O resultado, a guerra chegou ao fim em 1975, foi a morte de milhões e sequelas que persistem até hoje nos vietnamitas devido o uso excessivo de bombas químicas. Do lado norte-americano, cerca de 58 mil soldados foram mortos e outros 304 mil ficaram feridos. No Vietnã – já que os ataques dos EUA não se limitavam ao Norte, mas a quem estivesse no caminho do capitalismo – o número de vietnamitas mortos em ação foi de quase 1, 4 milhões e 2,1 milhões de feridos. O número de mortos do Vietnã contabilizados não baixa de 3 milhões. E o total de vítimas desse conflito não baixa de 8 milhões.

A barbárie dos imperialistas foi tão grande que até a terceira geração de vietnamitas é afetada com as bombas químicas. Milhares nascem com sequelas, outros tantos têm cânceres.

1968

vietnamvvaw.jpgMesmo com o fim da guerra ainda distante, foi logo no começo de 1968 que os Estados Unidos começavam uma de suas maiores derrotas – que iria se repetir anos depois no Iraque e Afeganistão. O responsável pelas tropas da FLN era Vo Nguyen Giap, o mesmo que impôs a derrota aos franceses. Uma ação conjunta entre a Frente e o exército do Norte foi comandada por Giap na conhecida Ofensiva do Tet.

Tet é o período de fim de ano, período que no decorrer dos anos de guerra tinha trégua entre os dois lados. Giap preparou duas frentes: uma à aldeia de Khe Sanh, onde se concentravam os fuzileiros americanos e outra nas principais cidades do Vietnã do Sul. A ofensiva tinha como objetivo principal expulsar os americanos e unificar o país. O objetivo mínimo era cancelar os bombardeios americanos e obrigá-los a iniciar as negociações.

A investida toda não atingiu seu foco principal. Em questão de dias os EUA recuperaram as cidades ocupadas. Além disso, as baixas americanas foram muito menores que as do Vietnã do Norte. Contudo, independente disso, a audácia do ataque planejado por Giap pegou as tropas e o governo americanos totalmente desprevenidos. A guerra, que tinha tudo para ser ganha pelos americanos, que tinha um objetivo, passou a ser vista pela população como um grande erro.

A ofensiva teve um forte impacto sobre a moral das tropas americanas.  A população dos EUA não estava satisfeita com a forma que o governo conduzia a ofensiva ao Vietnã. Não entendiam o motivo de ver os soldados serem enviados para morrer e matar em vão. Além disso, em sua esmagadora maioria, eram enviados para combater no Vietnã os filhos da classe operária e os negros. As tropas, já desmobilizadas com a situação do país invadido começaram a perceber que seus compatriotas não apoiavam a guerra. Por que então lutar?

Apesar de não alcançar o principal objetivo, em meados de 1968 começaram as negociações entre os dois lados em Genebra. O então presidente dos Estados Unidos, Lindon Jonhson não teve chances nas eleições e Nixon assumiu o cargo. Nixon aprofundou as ofensivas no Vietnã, tentando ganhar nas negociações – já que em campo a vitória parecia impossível.

Mas depois da Ofensiva Tet, a revolta da população só aumentou. A reação entre os soldados foi tamanha que milhares de oficiais foram mortos, pois não havia ânimo para lutar. Longe disso, os soldados se negavam a cumprir as ordens ou simplesmente as ignoravam. As negociações seguiam, e em 1973 as tropas americanas desapareceram do Vietnã, junto com todo o seu aparato. Por dois anos ainda as forças do Sul tentaram manter o posto, mas sem a ajuda americana era questão de tempo até serem exterminadas.

As lições

Após 28 anos a guerra terminou e o Vietnã conquistou a liberdade e foi unificado. Apesar de toda a destruição, dos milhões de mortos e feridos, o país conseguiu se reerguer em grande parte devido a política da economia planificada. Longe de adotar o que Trosky e Lenin fizeram na Rússia em 1917, o país aplicou o comunismo degenerado de Stalin. Contudo, as principais lições a serem tiradas estão na capacidade de luta e organização dos vietnamitas.

Não havia como vencer o exército americano. Os EUA tinham o domínio aéreo e do mar. Tinha as melhores armas, soldados bem treinados e preparados. A comunicação e inteligência também não tinham comparação. Porém, os vietnamitas lutavam pela sua liberdade e estavam dispostos a morrer por isso. Alan Woods alertou sobre isso em seu artigo “A Ofensiva Tet: o ponto de viragem da Guerra do Vietnã” (2008). Além disso, a desmoralização das tropas americanas devido a falta de apoio da população do próprio país foi outro fator agravante para a derrota dos EUA.

A Guerra do Vietnã ensina até hoje o caminho para a liberdade: a organização e a luta. Muito além disso, o ano de 1968 continua ensinando aos jovens e aos trabalhadores que a luta é o caminho. Os EUA enfrentaram diversas manifestações contra a participação na Guerra do Vietnã. Milhares iam às ruas pedindo a retirada das tropas. Estudantes foram mortos em uma mobilização e dezenas de universidades tiveram aulas suspensas para evitar as manifestações dos estudantes.

Há um mundo a ser libertado. A juventude ocupa um papel central nessa tarefa e precisa aprender com a história a se organizar e construir a revolução junto com a classe trabalhadora. Avante, até a derrocada de vez do capitalismo. Até a construção de um mundo livre.

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