“Metaforicamente, o menino é mais um urubu entre tantos”, diz artista sobre obra censurada

João Diego Leite e Vinícius Camargo

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Criador da novela gráfica “Castanha do Pará” e ganhador do Jabuti, mais importante prêmio literário do Brasil em 2017, Gidalti ganhou destaque nacional recentemente, quando teve um desenho seu retirado de uma exposição, após vários ataques de policiais militares.

A ilustração é a capa do livro "Castanha do Pará" e foi removida da exposição em um shopping localizado na Av. Augusto Montenegro, em Belém. A imagem retrata um garoto com cabeça de urubu escapando de um policial.

É interessante analisar o choque provocado na Polícia Militar pela situação em que o policial é mostrado. Enquanto o garoto faz uma acrobacia semelhante ao Homem-Aranha, o policial está mais estático que o Robocop. Ele não apenas está reprimindo uma criança ou adolescente, mas esse garoto está fugindo. Ou seja, o perseguido vence.

Diferente de muitas pessoas, a polícia parece ter entendido a imagem que, em seu silêncio, fala sobre uma realidade cotidiana de Belém. As cores são vivas, mas as partes mais escuras formam uma oposição: o policial com cassetete e a cabeça de urubu. Além disso, as frutas saltam do quadro e nos colocam dentro da imagem. Abaixo, uma entrevista com o autor:

Gidalti, antes de tratarmos diretamente do assunto da censura de sua obra, poderia falar sobre como surgiu a ideia da HQ?

A ideia surge a partir de um conto, Adolescendo Solar, de Luizan Pinheiro. Queria falar sobre algo que transparece verdade e intimidade com o tema. A realidade do menino que vaga pelo mercado Ver-o-Peso remete muito a fatos que pude ver em primeira pessoa em Belém, e esse conto despertou minha vontade em transformar o enredo em algo gráfico e com minha leitura dos fatos. Após muita pesquisa e experimentações, senti que o que realmente me motivava não era somente a parte visual, e sim contar minhas próprias histórias dentro do contexto amazônico urbano que me é familiar. Então decidi entrar pra valer na produção de uma HQ autoral.

Há quanto tempo você trabalhava nessa proposta?

Trabalhei aproximadamente três anos, me dividindo entre a docência e a produção do álbum.

Falando um pouco sobre história em quadrinhos, tem gente que pensa que HQ é só super-herói. Mas não é só, certo? Poderia falar um pouco sobre as publicações de HQ e a gama de assuntos tratados, para além de super-heróis?

A quantidade de temas e estéticas que existem nas histórias em quadrinhos é imensa. Países como França, Bélgica, Estados Unidos e Japão, por exemplo, possuem uma relativa identidade no que se refere a HQ.

No Brasil, em regra, ainda associamos quadrinhos a super-herói ou conteúdo infantil, como Turma da Mônica e Walt Disney ou Mangá. No entanto, além destes, existem muitas outras propostas estéticas dentro do gênero e essas são destinadas aos mais diversos públicos. Vivemos um momento interessante no cenário nacional, onde propostas menos populares estão ganhando um bom espaço no mercado editorial e assim a noção do gênero se alarga.

Quando eles retiraram a obra, você tentou solicitar para recolocar? Os responsáveis disseram o quê?

censura.jpgNão solicitei para recolocar pois isso é função da curadoria e não me sinto à vontade para gerar essa demanda. O espaço e a curadoria se manifestaram formalmente em nota direcionada à imprensa, associando a censura à exposição com violência às crianças. Por meio dos bastidores, eu recebi informações que confirmavam que o real motivo era a pressão de grupos radicais e simpatizantes da Polícia Militar.

Você relaciona essa censura com outros casos que ocorreram pelo país, como no Queer Museu?

De certa forma, sim, pois pessoas estão colocando suas percepções morais acima da liberdade, e isso é perigoso. Há ainda um contexto de ignorância, justificativas rasas e autoritárias sobre o que pode e não pode no universo artístico. Mas penso que meu caso seja ainda mais bizarro, pois minha arte não é tão polêmica e provocadora como a apresentada no Queer Museu, o que aumenta ainda mais nossa necessidade de alerta, pois a censura está muito parecida com a que ocorria na ditadura militar, onde se via conspiração e ilegalidade em tudo.

Na imagem, o policial segura um cassetete, ao mesmo tempo o garoto foge como um super-herói, como malandragem, acrobacia. Essa era sua intenção? Mostrar a PM como uma estátua repressora e o moleque com a “malícia” da sobrevivência?

O foco da questão não é a Polícia Militar. Usaram a capa como oportunidade para exporem seu autoritarismo e poder de intimidação. Cabe ao leitor interpretar as imagens e os textos. Quem absorve a obra a partir de um ponto de vista sensível e de boa fé, não age como essa minoria ignorante e carente de atenção.

O lugar que a imagem é retratada existe mesmo? Qual o motivo de escolher esse lugar?

Sim, o lugar existe. É o tradicional mercado do Ver-o-Peso, em Belém do Pará. O local foi escolhido pois é possível ver muitos contrastes sociais e estéticos.

Como surgiu essa ideia de um garoto com cabeça de urubu?

No mercado do Ver-o-Peso, é possível encontrar muita sobra de alimentos deixados pelos feirantes. Isso faz com que essa região fique cercada por muitos urubus, que sobrevivem de restos de frutas, carnes etc. Metaforicamente, o menino é mais um urubu entre tantos.

P.S.: Talvez nada seja mais afrontoso à PM do que a forte sensação de que, após o retrato, o garoto conseguiu fugir ileso. Ou seja, ele venceu. Um daqueles breves ensaios de uma vitória ainda maior que eles não querem ver brotar na imaginação do povo trabalhador. Um destes ensaios que a boa arte pode propiciar.

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