Estudantes do Brasil se levantam contra Bolsonaro

Joe Attard*
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O candidato de extrema direita, Jair Bolsonaro, foi eleito com 55% de votos válidos nas eleições do dia 28 de outubro. Ele derrotou candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, que recebeu 45%. No primeiro dia, os estudantes e a juventude foram os primeiros a se posicionarem, encabeçando a luta contra o novo regime reacionário.

Como Bolsonaro ganhou?

Bolsonaro é um político extremamente reacionário: Misógino, homofóbico, racista e violentamente anti-socialista. Ele descreveu militantes da esquerda (etiquetados por ele como “marginais vermelhos“) como se fossem terroristas e ameaçou prendê-los.

Devemos ressaltar, no entanto, que sua eleição não representa uma vitória do fascismo (ao contrário do que diz a reação histérica da ala reformista). Apesar da violenta retórica e as pautas de extrema direita, Bolsonaro não encabeça uma força massiva de militantes pequenos burgueses com objetivo de fisicamente liquidar a classe trabalhadora.

Os trabalhadores e suas organizações no Brasil continuam fortes e em boa parte ainda não entrou em cena. Se mobilizados, podem facilmente superar e muito qualquer ameaça reacionária nas ruas. Já vemos prelúdios disso com contraprotestos a apoiadores de Bolsonaro que têm dado as caras desde o domingo (das eleições).

Certamente é uma referência para a extrema direita ligada ao militarismo (atualmente capitão da reserva). É declarado apoiador da ditadura militar que governou o Brasil até 1985. E de fato existem gangues genuinamente fascistas entre seus seguidores. Essas gangues, apesar de pequenas, são perigosas. Já chegaram a atacar e matar apoiadores do PT talhando suásticas em suas peles.

Mas a vitória de Bolsonaro se deve em grande parte ao PT, que durante 13 anos no poder traiu a confiança da classe trabalhadora brasileira ao realizar um governo de austeridade. No segundo turno, Haddad seguiu uma linha suicida de “união democrática” contra o “fascismo” – isso é, unidade entre partidos de esquerda com os mesmos partidos burgueses de direita que dois anos atrás depuseram Dilma através do Impeachment.

Ao fazê-lo, Haddad passou a ser visto como idêntico aos demais políticos do establishment. Já Bolsonaro, assim como Donald Trump nos EUA, se apresentou como um candidato “anti-establishment”: se colocando contra a corrupção e ao apodrecido status quo.

A falta de uma alternativa séria, socialista (combinada com 42 milhões de eleitores que não votaram em nenhum dos dois) denotam que a retórica “anti-sistema” do Bolsonaro ganhou dessa vez. Em verdade, ele representa a crua e deslavada continuação do status quo capitalista e vai entregar o Brasil diretamente às mãos do capital financeiro imperialista com uma agenda ultra-liberal, contra a classe trabalhadora.

Estudantes reagem às opressões!

Antes da eleição, a juventude no Brasil experimentou a repressão que está por vir no governo Bolsonaro. Mais de 20 universidades foram invadidas pela Polícia Militar, que confiscou materiais “anti-fascistas” e interrompeu aulas devido ao “conteúdo ideológico”, sob o pretexto de garantir a “ordem eleitoral”. Na verdade, uma flagrante tentativa das instituições de calar qualquer manifestação contra Bolsonaro.

No Rio, tribunais eleitorais ordenaram a Universidade Federal Fluminense a remover uma bandeira anti-fascista da fachada do campus de Direito, ameaçando prender o diretor se não a removesse em 12 horas. A polícia também removeu bandeiras e banners em suporte a Marielle Fraco (vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL assassinada em 2018). No Rio Grande do Sul, um evento chamado “Contra o Fascismo, pela Democracia” foi proibido pelo Tribunal Eleitoral, e o organizador foi ameaçado de prisão pela PM por criticar Bolsonaro. Casos semelhantes foram reportados por todo o Brasil.

Essas manobras do Estado vão no mesmo sentido de uma atuação do Judiciário em Abril, que forjou acusações ao candidato do PT – Lula – o impedindo de participar das eleições. À época, Lula era o político mais influente do Brasil.

Os ares bonapartistas no Estado brasileiro (com o judiciário se colocando acima das classes e intervindo diretamente pelos interesses da dominante) só vão se intensificar no governo Bolsonaro.

Nas condições da crise do capitalismo, Bolsonaro vai tentar contornar o processo democrático burguês e usar a alavanca do poder de Estado para forçar suas políticas reacionárias no povo brasileiro. De qualquer forma, isso vai provocar conflitos de classe e na juventude, muitos dos quais já estão nas ruas protestando contra o regime.

Estudantes da esquerda responderam à repressão e intimidação do Estado se organizando em defesa de seus direitos democráticos. Na segunda (29/10), 15 apoiadores do Bolsonaro tentaram fazer um “ato” na USP (um número pífio perto dos milhares que declararam interesse no Facebook). Foram recebidos por um ato de 500 estudantes, com palavras de ordem contra Bolsonaro, que terminaram dissolvendo o ato do grupelho.

No mesmo dia, estudantes da Universidade de Brasília (UnB) repeliram um grupo de 30 apoiadores do Bolsonaro que tentaram invadir o campus para “caçar comunistas”. Vestiram verde e amarelo e carregaram imagens do novo presidente. Em resposta, milhares de estudantes ocuparam a entrada do campus para impedir a entrada. Isso levou a um confronto físico e os invasores foram forçados a se retirar.

Esse tipo de resposta resoluta aponta o caminho e deve servir de exemplo à juventude e à classe trabalhadora.

Construindo a resistência

Esses confrontos são apenas os percursores das batalhas que estão por vir. Entretanto, claramente demonstram que Bolsonaro e seus grupelhos vão encarar feroz oposição se tentarem ameaçar ou intimidar trabalhadores ou a juventude

A tarefa de agora é no sentido dos estudantes e da juventude se unirem à classe trabalhadora, representados por massivas organizações, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), e organizar uma resistência unificada a esse novo governo reacionário.

Capitalistas do mundo inteiro acolhem calorosamente Bolsonaro, que prometeu cortar serviços públicos, atacar sindicatos e abrir o Brasil à orgias de exploração e lucro aos especuladores internacionais. Essa é a missão do movimento operário internacional e dos setores progressistas dos estudantes de todos os lugares: prestar solidariedade à oposição que se forma contra Bolsonaro, representada pelos estudantes que já confrontaram fisicamente as forças da reação em suas universidades.

Essa eleição é um duro golpe à classe trabalhadora e a juventude. Mas o real confronto ainda está por vir. Nos exemplos acima, é notável que os apoiadores de Bolsonaro são massivamente menores do que as demonstrações em contrário, o que dá uma amostra da real correlação de forças no Brasil.

Devemos tirar lições dessas eleições, abandonar estratégias falhas de colaboração de classes com o establishment “contra o fascismo” e reunir forças para as batalhas que virão.

*Joe é militante da Corrente Marxista Internacional na Grã-Bretanha.

Tradução de Marcelo Pancher.

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