O 57º Conune entregue à conciliação de classes

Marcelo Pancher

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Dos dias 10 a 14 de julho, em Brasília, reuniram-se mais de 10 mil estudantes de todo o Brasil para o 57º Congresso da UNE, sendo 8.013 delegados com direito a voto para a nova direção. No passado, a UNE ergueu a voz para reivindicar "Educação Pública, Gratuita e Para Todos", "Fim do Vestibular" e "Abaixo a Ditadura!". Na atual conjuntura, este espaço de discussão e organização dos estudantes está totalmente aparelhado por uma burocracia ligada aos partidos majoritários ditos de esquerda (PCdoB e PT, principalmente, e por alguns setores do Psol). A eleição dos delegados, na maioria dos casos, se dá de forma fraudulenta e desvinculada do movimento estudantil real. Poucos estudantes participam dessas discussões e menos ainda têm poder real de modificar alguma coisa.

O evento foi dividido em abertura (dia 10), dois dias de discussões simultâneas e dispersas pela unidade (11 e 12) e dois dias de votação sobre a conjuntura, perspectivas e nova direção (13 e 14). O dia 10 coincidiu com a aprovação da Reforma da Previdência na Câmara dos Deputados, mas as palavras de ordem giraram em torno da defesa de financiamentos à iniciativa privada como Prouni/Fies, políticas afirmativas e sobretudo "Lula Livre", que foi o tema principal das discussões dos dias seguintes. Basicamente, a linha da "resistência" se resumiu ao apelo às instituições, à defesa da democracia (burguesa) e ao capitalismo representativo, sem qualquer perspectiva de rompimento com o status quo.

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Para não passar batido, houve um ato no dia 12, na Esplanada dos Ministérios, com protagonismo evidente dos estudantes, considerando a ausência das bases sindicais pela falta de mobilização de suas direções.

Apesar da disposição de luta das bases, o balde de água fria jogado pelos dirigentes demonstrou-se nos discursos genéricos, como a fala da Ana Paula (Juntos!) que colocou a "educação como a única arma" contra o governo Bolsonaro, ignorando a luta de classes, o combate aos ataques concretos à educação e a universidade, a Reforma da Previdência e o direcionamento a uma Greve Geral duradoura em apoio à classe trabalhadora. Nesse quesito, as chapas "rivais" em pouco se diferenciavam.

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A política de Bolsonaro que corta verbas para a educação pública, particularmente para as universidades e para a pesquisa, que provavelmente ocasionará o fechamento ou funcionamento deficiente de várias universidades neste segundo semestre de 2019, não mereceu uma resposta a altura. A perspectiva de uma greve estudantil por tempo indeterminado em defesa das universidades públicas também não foi levada a voto.

A Liberdade e Luta interveio expondo a política de conciliação de classes, os acordos dos partidos "de oposição" representados por suas juventudes no congresso; e reivindicando o Não Pagamento da Dívida Pública, o fim dos acordos com a iniciativa privada, a luta por uma Educação Pública Gratuita e Para Todos e o Fora Bolsonaro.

Como de costume, houve combate das direções ao Fora Bolsonaro e muita dificuldade de introduzir palavras de ordem que não estivessem previamente ensaiadas pelos dirigentes com suas baterias. E há um motivo para isso. Na verdade, dois: difícil ignorar a faixa quilométrica do PCO com os mesmos dizeres, porém, com a perspectiva apontada de manter o sistema eleitoral, colocando Lula como candidato. Ou seja, um Fora Bolsonaro submisso ao mecanismo do impeachment. Prontamente, os defensores do “Estado Democrático de Direito” afirmam, em resposta, que não há base legal para este processo do Legislativo.

Um segundo fator é que, quando a palavra de ordem Fora Bolsonaro é colocada em rechaço ao governo e ao sistema que ele representa, guiando para uma tomada revolucionária do poder, a mesma “oposição”, contaminada pela ideia da onda conservadora, coloca-se em defesa do sistema capitalista e do Estado burguês como uma criança que se agarra a seu brinquedo velho. As direções que ladram uma postura radical afirmam que “os operários votaram nele, logo, ainda é cedo para agitar a palavra de ordem”, como os panfletos do PSTU que, antes arriscando um Fora Bolsonaro nas entrelinhas, agora o enfeitou com um lacinho burguês: “Fora Ministro da Educação! Basta de Bolsonaro e Mourão!”.

O resultado dessa valsa reformista foi a eleição da chapa “Frente Brasil Popular” com 70,96%, mantendo o PCdoB, a UJS, na direção. A segunda chapa foi a da “Oposição de Esquerda”, composta por várias forças com base em um acordo genérico e com a  linha geral de "educação é a única arma", "levante dos livros" e "vamos lutar". Pouco se lia nos programas de ambas as chapas sobre alguma perspectiva que rompesse de fato com a iniciativa privada, e nada de Fora Bolsonaro ou revolução socialista. “Regulamentação do ensino privado” e “contra o aumento das mensalidades” foi o permitido às opções que, a nível estadual, estão negociando a Reforma da Previdência através de seus partidos.

Há muita disposição de luta nas bases e grande possibilidade de que o calor das ruas atropele a inoperância das direções. Apenas um programa claro e socialista pode dar um bom desfecho para a classe trabalhadora.

Una-se à Liberdade e Luta!

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