Estudantes de Ryerson votam à favor de greve estudantil

Adam Zeineddine

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                                                             Imagem: Ryerson Student Strike

No dia 25 de setembro os estudantes de Ryerson organizaram um encontro em massa histórico. Essa assembleia geral, a primeira organizada no Canadá inglês [o Canadá tem um lado inglês e outro francês] em décadas, marca um enorme passo em frente à luta contra os cortes à educação superior feitos pelo Primeiro Ministro de Ontário, Doug Ford. Nessa assembleia geral de mais de 200 estudantes foi proposta uma greve de um dia marcada para 6 de novembro que passou com o voto de uma grande maioria.

A assembleia por si só foi notável pelos discursos entusiasmados e pelo apoio dos ativistas e estudantes envolvidos no Grupo da Greve dos Estudantes de Ryerson, assim como dos estudantes membros do Socialist Fightback (Sessão canadense da CMI), da faculdade e até mesmo da Ontario Federation of Labour [Federação do Trabalho de Ontário]. Tal ampla união reflete a profundo estado de ira que permeia Ontario perante os cortes massivos que o governo Ford instaurou, tanto como a frustração dos estudantes estarem sendo esmagados sob o peso dos cortes do Plano de Assistência ao Estudante de Ontário.

A necessidade de uma greve estudantil é clara

Logo após o início da assembleia, o grupo de Estudantes Ativistas de Ryerson cobriram o campus para encorajar o maior número possível de estudantes que transitavam a fazer parte da assembleia. Os corredores do Centro de Aprendizagem Estudantil onde foi realizada a assembleia, ecoavam com vários gritos como “They say tuition hike, we say student strike!” (Eles dizem aumento de taxas estudantis, nós dizemos greve estudantil!) e “Education is a right! We will not give up the fight!” (Educação é um direito! Não abandonaremos a luta!”. As palavras de ordem chamaram a atenção e logo vários estudantes estavam entrando para participar da assembleia.

Assim que iniciou-se o encontro, Hermes Azam - um dos principais porta-vozes do comitê de estudantes da greve estudantil - levantou-se para convocar a reunião com uma breve introdução. Ele enfatizou que aquele encontro seria histórico. Nenhum voto à favor de uma greve estudantil havia tido lugar no Canada inglês desde a greve organizada pela Federação de Estudantes do Canadá em 1996. Hermes também disse que “é uma pena que a executiva da União dos Estudantes da Ryerson estava perdendo um encontro histórico por negarem-se a participar”. Dois dias antes, os estudantes apoiadores da greve se encontraram com os membros da executiva do campus que informaram os ativistas que eles não iriam apoiar a iniciativa da greve. Como resultado, eles notavelmente se abstiveram da assembleia.

Seguindo Hermes, Marco LaGroRyerson, aluno e organizador do Socialist Fightback, foi convidado para falar. Marco mostrou a imagem sombria dos efeitos dos cortes em Ryerson. Estudantes têm ficado sem condições de bancar sua comida, aluguel e praticamente barrados de ter uma educação superior de qualidade. Marco criticou os líderes da união estudantil que defenderam pressionar as autoridades ou fazer uma segunda paralização para barrar os cortes, argumentando que ambas abordagens foram tentadas e falharam. Agora os estudantes tem não tem nenhuma opção se não ir em direção à construção de uma greve. Como prova de que os estudantes não temem greves, Marco apontou o fato de que milhões de estudantes do mundo inteiro estavam participando da greve global contra as mudanças climáticas naquela semana. Ele também frisou a ironia dos líderes da união dos estudantes ao esbanjar elogios para a greve climática enquanto ativamente ignoraram e até mesmo suprimiram o movimento de greve de seus próprios membros.

Ao invés disso, no mesmo momento que ocorria o encontro histórico, os líderes eleitos do movimento estudantil de Ryerson estavam organizando uma noite de Karaoke. Ao saber disso, a multidão explodiu em gritos de “Vergonha!”. Essa negligência é uma traição aberta do mandato do ano passado, na assembleia geral anual que votou a favor de uma greve estudantil. Marco continuou, pontuando que os estudantes não podem esperar pelos membros da união estudantil para moverem-se. Eles estão sofrendo agora, e uma luta contra esses cortes deve começar tão séria como a situação é crítica.

Seguindo de Marco, outro presente foi convidado a falar. O professor Antoine Panaioti do departamento de Filosofia de Ryerson falou do papel da faculdade num caso de greve com exemplos de experiências suas nas greves estudantis do Queberc de 2005 e 2012. Em ambos surpreendentes movimentos os estudantes lutaram, e em 2012 eles até mesmo conseguiram derrubar o governo liberal que estava apresentando o aumento de taxas da educação! O professor Panaioti apontou que é por isso que o Quebec desde aquela data, tem a menor taxa do Canadá. Ele também frisou que a faculdade em Ryerson iria apoiar os estudantes e muitos professores já deixaram claro que não puniriam os estudantes por estarem em greve. Qualquer luta contra o governo Ford teria o apoio da faculdade e para ser bem-sucedida deve se conectar com os trabalhadores numa greve geral.

Após essas falas de abertura, Olive Pape, estudante ativista do comitê de greve de Ryerson, propôs uma greve de um dia para 6 de novembro. Ela pontuou que uma greve seria plenamente possível e que o entusiasmo para ações contra os cortes estariam ali. A discussão então abriu para 30 minutos para as resoluções. Estudantes falaram sobre como os cortes os impactaram e da necessidade de uma greve. Nem um único estudante falou contra a resolução. A discussão variou entre o fato de que os cortes estão ativamente tirando a classe trabalhadora do ensino superior, ao fato de que estudantes tem o poder e a habilidade de se organizarem e lutar contra os cortes. Uma intervenção notável do ativista da greve de Ryerson, Jamie Graham, frisou o fato que a acessibilidade é geralmente posto como alguns estudantes burocratas como o motivo para não se organizar. O maior problema de acessibilidade, no entanto, não vem das greves estudantis e das assembleias gerais, mas dos cortes nos serviços do campus e o custo disparado das taxas. Esta fala foi bem recebida pela multidão massiva de estudantes, que aplaudia enquanto Jamie falava.

Após essa entusiasmada discussão, os votos foram tomados. Dos mais de 200 estudantes presentes, apenas um deles votou contra. Com esse enorme mandato de greve, toda a multidão de estudantes irrompeu em aplausos. Palavras de ordem espontâneas como “Foda-se Doug Ford” podiam ser ouvidas ecoando pelo prédio. Com este grande impulso à moral, mais de 100 estudantes se dirigiram às mesas de mobilização no final do encontro para se juntarem ao comitê de greve de Ryerson, que é responsável pelo planejamento de futuras ações e organizar a greve em si.

Apenas o começo: Espalhar a greve por Ontário

Esse voto em favor da greve estudantil foi um passo histórico frente à luta contra os cortes de Ford. Isto mostra que a disposição está para uma greve em Ontário. No último mês ouvimos dos burocratas pessimistas que não possível organizar os estudantes, que Ryerson é muito à direita e até mesmo que nossa maior chance é esperar três anos para votar para tirar Ford do poder. Entretanto, os estudantes de Ryerson provaram o contrário. Nós não temos de suportar três anos de cortes: A luta pode e deve começar agora. É plenamente possível organizar os estudantes e construir uma forte greve estudantil através Ontário.

Não há nada de especial sobre Ryerson que levou a este histórico voto à greve. Os estudantes de Ryerson não são mais oprimidos por Ford que qualquer outro campus ou província. Os estudantes de Ryerson não são nem um pouco mais radicais que outros campi (de fato Ryerson é uma commuter school* sem uma tradição de engajamento dos estudantes). A única diferença entre Ryerson e outros campi foi de que um comprometido grupo de militantes de base dispostos a fazer seu trabalho e superar os obstáculos da burocracia para providenciar um fórum onde a opinião genuína dos estudantes possa ser expressa. Não há razão para que movimentos similares irrompam em cada escola de Ontário.

Os estudantes de Ryerson não devem ficar sozinhos. Por toda Ontário estamos ouvindo histórias similares de estudantes lutando sob o peso destes cortes. A luta deve se espalhar. Por toda a província, em todos campi, assembleias gerais com votos aderindo greves estudantis devem ser organizadas para um dia de greve estudantil massivo em 6 de novembro. Essa luta deve trazer trabalhadores aos campi, faculdade, e se juntar ao movimento trabalhista mais amplo para ser bem-sucedido.

Se você é um estudante de Ryerson, nós o encorajamos a se envolver com o comitê da greve estudantil de Ryerson para ajudar na organização do 6 de novembro. Se você é estudante de outro campus, nos contate para conselhos do que fazer para espalhar esse movimento. Se você é um trabalhador, apoie nossa luta e utilize da experiência dos estudantes para levantar a chamada de uma greve mais ampla contra o regime de Ford. Como Olive Pape disse ao mover o movimento da greve, “Nós não temos nada a perder, a não ser nossos empréstimos, e educação pública e gratuita para ganhar!”.

Demandas da greve dos estudantes de Ryerson:

  • Barrar os cortes à OSAP
  • Eliminar as taxas estudantis para todos
  • Restaurar o fundo universitário
  • Defender nosso direito de nos organizarmos, revogar a “Student Choice Initiative”
  • Apoio aos trabalhadores do campus, revogar o 1% do teto salarial do setor público

*Commuter School são faculdades ou universidades que tem uma dinâmica diferente das faculdades norte-americanas tradicionais, como jogos de futebol, dormitórios, casas gregas, geralmente são frequentadas por pessoas que buscam uma graduação mais velhas [nota da tradução].

Tradução Nathália Kons

Publicado originalmente em 27/09/2019 no site https://www.marxist.com/canada-ryerson-students-vote-in-favour-of-a-student-strike.htm

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