Revolução Mundial: o que acontece no Irã?

Mell Pecóis
51280888_303.jpg

Desde o último dia dezesseis (16), milhares de pessoas têm saído às ruas iranianas em manifestações antigoverno e contra o ditador teocrático, o aiatolá Ali Khomeini. Depois do anúncio de profundos cortes no subsídio de combustíveis, o que provocou um aumento repentino de 50% em seu preço, a classe trabalhadora explodiu em protestos, primeiramente nas províncias de Khuzestan, Kermanshah e Fars, depois se espalhando para outras áreas.

É a maior onda de manifestações desde o final de 2017 e início de 2018, onde o povo também se enfurecia contra políticas econômicas extremamente prejudiciais à classe trabalhadora.

Gritos de “Morte ao ditador” e pela queda do regime foram ouvidos em atos. Cartazes do líder supremo foram incendiados, além de várias fundações religiosas, a sede da milícia Basij e bancos. Ruas foram bloqueadas com barricadas, houve ataques à postos policiais e carros sendo virados e ateados fogo. É a fúria da classe trabalhadora contra os ataques às suas condições de vida!

Trabalhadores enfrentam a barbárie

A reação foi brutal, com ao menos 143 pessoas mortas pelas mãos da repressão, segundo relatório da Anistia Internacional divulgado nessa segunda-feira (25). Pelo menos três mil pessoas ficaram feridas. O número é uma estimativa, já que o acesso à internet mundial foi cortado e ainda na segunda não havia sido completamente restabelecida. A organização ainda afirma que quase todas as mortes foram provocadas por armas de fogo.

 Há relatos de que helicópteros sobrevoavam as manifestações atirando em qualquer pessoa. Ruas se transformaram em zonas de abatimento da população desarmada. As autoridades ainda negaram a entrega dos corpos das vítimas a suas famílias, segundo o comunicado da Anistia.

Em seu discurso no domingo (17), Khamenei (líder máximo na hierarquia religiosa do Islão xiita, também chamado de Ayatollah) defende a medida, estopim para o conflito, e chama os manifestantes de bandidos que ameaçam a segurança nacional, insinuando que os organizadores são agentes internacionais que querem introduzir no país os ideais do imperialismo norte-americano-israelense, o que é claramente uma mentira para dividir os trabalhadores. Com a mídia censurada e a queda da internet, fica mais fácil justificar a violência bárbara do pásdárán (Exército de Guardiães da Revolução Islâmica) contra a classe trabalhadora e a juventude nas ruas.

Nenhuma ilusão no Ayatollah, nenhuma ilusão no imperialismo

A “ameaça imperialista” é sempre usada pelo regime para explicar qualquer corte de direitos e ainda aparecer como o defensor do povo iraniano. Obviamente os EUA desempenham uma política de dominação no Irã assim como nos países da América Latina e outros. Mas a classe dominante utiliza o sentimento anti-imperialismo contra os manifestantes que se levantaram por causa do aumento dos combustíveis, para enfraquecer e dividir o movimento. Daí a necessidade de se apontar um caminho anti-imperialista e para derrubar o governo, pois somente um governo dos trabalhadores pode, de fato, sanar as necessidades mais sentida das massas trabalhadoras.

 O presidente Hassan Rouhani ainda utilizou a desculpa de que o dinheiro dos subsídios será usado para o auxílio dos mais vulneráveis. Marchas pró-governo foram organizadas via SMS e veiculadas pela mídia nacional. Centenas de pessoas marcharam até a Praça da Revolução, em Teerã, gritando “Abaixo os EUA” e portando fotos do supremo líder. Depois, se reuniram para ouvir o discurso de um comandante da Guarda Revolucionária, chamando o povo a condenar “os distúrbios americanos-israelenses” dos últimos dias.

Mas a classe trabalhadora iraniana tem experiência com as fracassadas medidas dos governos da classe dominante, acumuladas durante décadas. Com o desemprego subindo desenfreadamente, custos de moradia altíssimos e inflação acima de 30% por obra de políticas econômicas parecidas com a recentemente anunciada, o problema do combustível serviu apenas para inflamar os ânimos já exaltados. Até autoridades iranianas admitem que a crise seja sem precedentes nos últimos 40 anos.

c0cc3e1609b428ef1932aabfce77656b_w720_h720.jpg

O capitalismo está agonizando

Indústrias estão falidas e mesmo os que ainda estão empregados não têm condições de pagar por moradia nas áreas industriais. Com o aumento no preço do combustível, e o racionamento por tamanho de veículo também imposto (limitado a 60 litros por mês), o valor do deslocamento fica insustentável.

As áreas que iniciaram os protestos são províncias pobres que sofrem exatamente com números elevados de desemprego, onde muitas famílias perderam suas economias quando bancos locais anunciaram falência. Tais bancos, chamados também de cooperativas, funcionavam como um grande esquema de pirâmide velado durante o governo de Ahmadinejad. Porém, uma vez declarada a falência, o governo passou a confessá-los como ilegais, mesmo depois de anos sob a suposta supervisão do Banco Central. Seus donos nunca tiveram que responder por nada. Por isso o ataque feroz aos bancos nas manifestações, e a tudo que representa a austeridade.

Nos primeiros dias de protestos, o secretário de Estado americano Mike Pompeo condenou a violência contra os manifestantes, mas não disse uma palavra a respeito das providências governamentais hostis impostas aos trabalhadores. Não há dúvidas de que o imperialismo quer aproveitar as brechas para reintroduzir a monarquia e fazer do povo iraniano seus próprios vassalos.

Essas medidas de austeridade foram recomendadas pelo FMI como um meio de regularizar as relações comerciais no país de acordo com as necessidades do mercado. Sem contar as sanções unilaterais que Trump impôs ao Irã que contribuíram para uma redução, em média, de 10% no PIB. As massas trabalhadoras do país estão vivendo em uma miséria que a democracia burguesa ocidental também não é capaz de resolver, e nem pretende.

Desesperado para manter a ordem a qualquer custo, o governo mandou parar o transporte público em muitas áreas urbanas. Várias universidades também tiveram seus portões fechados. Ainda assim, a juventude iraniana organizou atos e bradou gritos pedindo a queda do regime dentro das próprias universidades, mesmo com grande presença da força policial cercando os locais.

Em relatos, muito estudantes foram detidos, inclusive a jornalista estudante Sepideh Gholian, de 22 anos, que foi presa por cobrir a greve de trabalhadores da refinaria Haft Tappeh em janeiro desse ano, e havia sido solta há apenas algumas semanas. Apesar da forte repressão, estudantes mostraram solidariedade à luta dos trabalhadores em todos os dias de protesto.

O que está acontecendo no Irã é a prova viva de que o sistema capitalista está agonizando para resolver sua crise. Para se salvar, aumenta a exploração dos trabalhadores e da juventude, mas em todo mundo há exemplos de que a classe não está disposta a mais sacrifícios. No Programa de Transição (1936), Trotsky já nos alertava sobre a crise histórica da direção do proletariado. A principal fraqueza do movimento no Irã é a falta de uma direção capaz de levar adiante as demandas do povo com base em um programa claro e socialista.

cf878aea52f2bcc0d8d3e975adc676b3_w700_h500.jpg

Pela construção de organizações iranianas de classe!

Organizar uma greve geral nesse momento é fundamental para desmascarar as tentativas de desmoralização dos protestos e a repressão, além de combater o isolamento de militantes. Comitês democráticos devem ser organizados nos bairros, e mais adiante podem ser construídos a nível nacional. Comitês em escolas, fábricas e universidades também devem fortalecer e expandir o movimento organizado a partir de um programa claro, que em seu primeiro momento deve pautar a queda do regime, a dissolução das milícias, separação das instituições religiosas do Estado e a convocação de uma assembleia constituinte com delegados eleitos para decidir democraticamente o futuro político do Irã.

Outras principais demandas incluem o pagamento imediato dos salários atrasados, e salários dignos para todos os trabalhadores e ajustados de acordo com a inflação. O programa também deve pautar a reestatização de todas as empresas privatizadas sob controle dos trabalhadores, além de seu controle sobre a economia. O programa não deve excluir a educação e saúde públicas e gratuitas, de qualidade para todos. Apenas a classe trabalhadora é capaz de dar uma saída satisfatória para as necessidades sentidas por ela.

A atual crise do capitalismo no Irã pode ter suas particularidades, mas o problema fundamental é o mesmo no Brasil, no Chile, Bolívia e em qualquer país capitalista onde os trabalhadores continuam sendo explorados e assassinados. Somente a classe organizada e em luta conseguirá se emancipar das correntes do capital. E o fará com suas próprias mãos, e com o auxílio de suas ferramentas históricas.

 “Ela virá, a revolução, e trará ao povo, não só direito ao pão, mas também à poesia.” – Leon Trotsky.

Referências:

https://www.marxist.com/iran-rising-of-the-dispossessed-youth.htm

https://www.marxist.com/fuel-price-hike-ignites-protests-in-iran.htm

https://en.radiofarda.com/a/iran-illegal-banks-fail-depositors-protest/28849665.html

https://iranwire.com/en/features/6461

https://iranwire.com/en/features/6443

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/12/internacional/1555086967_463588.html

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/08/07/sancoes-unilaterais-dos-eua-contra-o-ira-entram-em-vigor.ghtml

https://www.niacouncil.org/tag/humanrights/

Data post