Irã: Não à guerra! Lutar pela revolução! Abaixo o imperialismo!

Mell Pecóis
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        No cartaz "Não à guerra com Irã" nos EUA. Mais de 70 cidades registraram manifestações contra a guerra nos EUA. 

No dia 3/1, um drone estadunidense assassinou, em Bagdá, o general iraniano Qassem Soleimani, chefe da Guarda Revolucionária, bem como o principal líder paramilitar iraquiano, Abu Mahdi al-Mohandes. O feito ganhou comoção mundial e temores de uma nova grande guerra surgiram.

Para comandar o ataque, Trump passou por cima do Congresso americano, mostrando a verdadeira face da democracia burguesa que serve somente aos negócios do capital. Ainda que seu ato tenha sido criticado por parte de setores do partido Democrata e de seu partido, as críticas visivelmente atacavam não o feito em si, mas a maneira no qual foi conduzido e como as consequências podem afetar o imperialismo. A chamada “medida defensiva” de Trump era na verdade para manter salvo seus interesses próprios.

Em O Programa de Transição, Leon Trotsky disserta sobre o papel da guerra e as estratégias imperialistas de submissão dos povos:

Na questão da guerra, mais do que em qualquer outra, a burguesia e seus agentes enganam o povo com abstrações, fórmulas gerais, frases patéticas: "neutralidade", "segurança coletiva", "armamento para a defesa da paz", "defesa nacional", "luta contra o fascismo" etc. Todas estas fórmulas se reduzem no final das contas, à questão de que a guerra, quer dizer, a sorte dos povos, deve continuar nas mãos dos imperialistas, de seus governos, de sua diplomacia, de seus estados-maiores, com todas suas intrigas e todos seus complôs contra os povos. (TROTSKY, 1938)

Fica claro que não é de hoje que a burguesia tenta ludibriar a classe operária com a mesma história fantástica: de que o operariado depende do capitalista nacional ou do imperialista para garantir a “paz”, ou a “democracia”. Uma das desculpas de Trump para matar Soleimani é de que ele foi um dos principais responsáveis de comandar a repressão nas manifestações de novembro de 2019.

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                         Imagem: EFE Manifestações no Irã em repúdio ao assassinato de Soleimani

Durante esse episódio, a ditadura teocrática sofreu severa pressão após as massas tomarem as ruas do país contra o corte nos subsídios do combustível. E as palavras de ordem pediam justamente o fim do regime. Contra esses duros golpes da classe trabalhadora e da juventude, o governo iraniano respondeu com extrema violência, matando cerca de mil pessoas e prendendo mais de dez mil. Esse desespero da burguesia nacional para se manter no poder mostrou a força da classe trabalhadora, que apenas foi dispersada porque, com o corte da internet e censura da mídia, a comunicação se tornou um desafio intenso. Principalmente porque no país não há um partido classista e socialista para organizar as massas.

Os trabalhadores sofrem com a miséria no país. As sanções norte-americanas sobre Irã (que segundo o próprio Trump irão aumentar substancialmente e em breve) levaram ainda mais instabilidade para região e tanto os EUA quanto o governo local querem que os trabalhadores paguem pela crise causada por eles. Dessa forma vemos que o interesse real do imperialismo nada tem a ver com os oprimidos.

O ataque serviu também para desviar atenção do processo de impeachment do presidente americano correndo desde o final do ano passado. Além do desprestígio das forças armadas de ocupação que aumentou no último período e Trump desejava restabelecer sua moral aos olhos de aliados e inimigos. Para isso a dívida trilionária de seu governo bateu recorde. Mas a opinião pública não esqueceu que uma de suas promessas de campanha era a retirada das tropas do Oriente Médio. Protestos contra a guerra no Irã aconteceram em mais de 70 cidades dos Estados Unidos.

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O Irã tentou responder a altura no dia 8 de janeiro, bombardeando uma base iraquiana e ferindo 11 militares americanos. No mesmo dia abateu um avião comercial matando 176 pessoas perto de Teerã, o que foi chamado de “erro humano”. A classe trabalhadora, mas principalmente a juventude foi às ruas da capital mais uma vez pedindo a saída do aiatolá Khamenei, o fim da ditadura e justiça às vítimas do incidente. As manifestações vieram com menor força do que as do ano passado, mas mostraram que a classe trabalhadora iraniana está atenta e disposta a lutar contra a guerra e contra a burguesia. A partir disso, muito se falou sobre uma terceira guerra mundial. No entanto, com toda a pressão interna gerada nos EUA contra a guerra, seria muito perigoso para Trump se lançar em uma aventura militar no exterior, além do fato de que isso poderia ser um fogo no barril de pólvora não só no Irã, como poderia despertar um sentimento de solidariedade internacionalista que levantaria um movimento contra a guerra imperialista em diversos países no mundo, dada a situação internacional que estamos vivendo de extrema instabilidade. 

O Parlamento iraquiano pediu a retirada das tropas americanas e, além das pressões locais e internacionais, o imperialismo terá que lidar com a perda de terreno para os iranianos em um território onde já subjugou e assassinou milhares de vidas, e onde há uma onda anti-imperialista cada vez maior.

A principal tarefa dos marxistas nesse momento é lutar contra as ilusões de que o imperialismo está preocupado com o povo. Durante os protestos contra o governo iraniano após a derrubada do avião civil, Trump em seu twitter disse que estava acompanhando a situação de perto e elogiou o povo iraniano pela sua bravura. Mas nós sabemos que o imperialismo tem sua própria agenda. Os desdobramentos do conflito revelam que na verdade a exploração e a miséria continuam na ordem do dia da burguesia nacional ou internacional, apesar de uma grande guerra ser improvável de acontecer. O interesse da classe burguesa desde sempre é a submissão da classe trabalhadora para manter seus próprios privilégios.  

Ainda no Programa de Transição, Trotsky (1938) esclarece que a construção de uma política correta compreende em uma atitude militante inflexível às guerras imperialistas e uma disposição para combatê-las usando a experiência da própria classe operária. O retorno à teoria revolucionária é fundamental para acessar essa experiência acumulada, e para organizar e lutar contra os ataques do capital precisamos das ferramentas corretas. Trotsky também aponta que para lutar contra essas guerras apenas a “indignação não basta. É necessário ajudar as massas por intermédio de critérios, de palavras de ordem, de reivindicações transitórias a distinguir entre a realidade concreta e essas abstrações fraudulentas”.

Ondas revolucionárias correm o mundo, e a cada dia vemos nas ruas a disposição de luta dos trabalhadores e da juventude, seja no Oriente Médio ou na América do Sul. Somente a derrubada do sistema capitalista encerrará esse capítulo histórico e trará a paz e a estabilidade tão desejadas pelas massas. Toda essa crise é sintoma de um sistema moribundo e de uma burguesia desesperada pela sobrevivência. Não há nenhuma esperança para ambos, assim como não deve haver nenhuma ilusão no imperialismo, e nem no governo iraniano. A saída para a classe trabalhadora é enterrar de vez o capitalismo e construir uma nova sociedade, uma sociedade socialista, livre das correntes que impedem o desenvolvimento da humanidade.

Nenhuma confiança no regime autocrático! Lutar pela revolução socialista!

Não à guerra! Abaixo o imperialismo!

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