O Oscar e a onda mundial de revoltas

Michel Goulart da Silva

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Em sua edição de 2020, o Oscar teve como grande vitorioso o filme sul-coreano
Parasita, dirigido por Bong Joon Ho. Neste ano a premiação se deu no contexto de um
conjunto de revoltas e revoluções em todo o mundo, em meio a mais uma crise do
capitalismo. Essas mobilizações são a resposta de jovens e trabalhadores à exploração a
que estão submetidos, o que obviamente se expressa nas diversas artes. Embora com
mediações e contradições, o cinema faz com que alguns dos filmes mais destacados no
Oscar deste ano expressem a atual situação política e social.
Na premiação deste ano se destacaram dois filmes que colocam a situação dos
trabalhadores no centro de suas narrativas. Em Parasita é representada a brutalidade do
capitalismo sul-coreano, que, depois de décadas de um processo de industrialização, viu
sua economia enfrentar crises periódicas, em particular a partir de 1997. O filme
Parasita coloca em cena uma família desesperada em busca de alguma forma de
sobrevivência. A despeito da contundente crítica à situação econômica e às
subjetividades que essa degradação pode provocar, o filme apresenta uma saída
individual.
Outro destaque do Oscar, com onze indicações, embora ganhando apenas dois prêmios,
foi Coringa. O filme, que apresenta uma adaptação bastante livre da origem do icônico
vilão do universo Batman, também coloca em cena trabalhadores desesperados diante
da completa falta de perspectiva. O protagonista é um trabalhador que perde sua
sanidade diante dos sofrimentos a que vai sendo submetido, contando com o Estado
apenas para fornecer sua medicação. Contudo, até mesmo isso ele perde. Para os
trabalhadores resta apenas a filantropia, com migalhas que a burguesia permite que
caiam de sua mesa. Essa burguesia hipócrita é representada justamente pela família
Wayne, especificamente na figura do burguês filantropo cujo filho virá a se tornar o
Batman.
Essa situação, vivenciada não apenas pelo protagonista, mas pelo conjunto da classe
explorada, jogada na miséria e sem apoio de qualquer política pública, são o estopim de
uma revolta que toma as ruas de Gotham. Um palhaço misterioso, que no limite de sua
sanidade elimina quem representa a causa de seu sofrimento, se torna a grande
referência dessa revolta, embora ele não tenha a intenção ou o desejo de dirigir esse
processo, e não defenda qualquer estratégia política. Nas ruas o que se tem é uma
revolta sem direção, em que os trabalhadores se movem pelo ódio à burguesia e ao
Estado. O drama da crise de direção é mostrado em sua extrema dramaticidade.
Os trabalhadores também são os protagonistas de American Factory, filme vencedor da
categoria documentário. O filme, que já vinha sendo bastante comentado devido ao
envolvimento da família Obama em sua produção, ganhou destaque durante a cerimônia
pela referência feita a Marx. Julia Reichert, diretora do documentário, afirmou: “Nosso
filme é de Ohio, mas também da China, e poderia ser de qualquer lugar onde as pessoas

vestem um uniforme e vão trabalhar para trazer uma vida melhor para sua família.
Trabalhadores e operários têm uma vida cada vez mais difícil. E nós acreditamos que a
vida vai melhorar quando os trabalhadores do mundo se unirem”. Essa breve menção ao
fantasma do comunismo parece ter coibido a politização superficial típica dos discursos
dos premiados.
Esse documentário, que retrata a reabertura de uma fábrica a partir da sua compra por
uma empresa chinesa, derrotou Democracia em vertigem. Embora badalado por uma
parte da esquerda brasileira, o documentário de Petra Costa, que faz uma apologia a
uma democracia nascida do pacto entre ditadores e oposição consentida, que teria
encontrado seu apogeu no governo de coalização de classes encabeçado por Lula,
parece não ter conquistado o público de Hollywood. Na disputa entre o sonho de uma
fantasiosa democracia idílica e a situação da classe operária, os jurados preferiram a
segunda opção.
Com todas as suas contradições e mesmo representando a celebração de um dos mais
lucrativos setores da economia norte-americana, o Oscar não passou incólume às lutas
travadas pelos trabalhadores por todo o mundo. Certamente não passaram pelo seu
palco a revolução ou a defesa da organização revolucionária dos trabalhadores, afinal
isso seria demais para a burguesia hollywoodiana. Contudo, não foi possível esconder o
impacto da crise política e social nos filmes e, principalmente, ao ver os jurados
destacarem filmes que expressam a onda mundial de revoltas e revoluções, ainda que de
forma indireta, mostra-se que não estão alheios à realidade.
Isso lembra uma passagem de Trotsky, em Literatura e revolução, quando afirmava:
“Os homens preparam os acontecimentos, realizam-nos, sofrem os efeitos e se
modificam sob o impacto de suas reações. A arte, direta ou indiretamente, reflete a vida
dos homens que fazem ou vivem os acontecimentos. Isso é verdadeiro para todas as
artes, da mais monumental à mais íntima”. Os artistas, ao deixarem correr por suas veias
o sentimento de revolta que perpassa a sociedade, invariavelmente vão colocar em suas
obras o grito que emana das ruas.

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