Os erros do ministro da Educação e o medo da burguesia

Evandro Colzani e Jonathan Vitorio

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Cerca de seis mil provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019 foram corrigidas com o gabarito trocado. O ministro da Educação, Abraham Weintraub – que hoje (11/2) presta depoimento no Senado sobre a situação –, culpou a gráfica responsável pela impressão das provas e, em uma tentativa de minimizar os danos, disse que apenas uma parcela pequena (0,1%) dos inscritos foi afetada. Esse erro gerou uma reação não apenas dos inscritos afetados, mas de um conjunto de entidades e partidos, culminando com um pedido de impeachment contra Weintraub protocolado por um grupo de deputados e senadores no Supremo Tribunal Federal (STF). 

Em meio a uma onda de polêmicas que desgastam a imagem do ministério da Educação (MEC) e do governo Bolsonaro, Weintraub sofre pressão de diversos setores da “esquerda” e da própria burguesia que deseja a sua demissão do ministério. 

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), chegou a declarar que Weintraub “é um desastre”, que “ele atrapalha o Brasil” e, ontem, disse que não vai “elogiar nunca o ministro da Educação”. A União Nacional dos Estudantes (UNE) declarou apoio aos que protocolaram o pedido de impeachment e está mobilizando há dias a palavra de ordem Fora Weintraub, na internet. 

O que não parece incomodar muito esses deputados, senadores e a própria UNE é a “parcela” que ficou sem vaga na universidade diante da impossibilidade de se inscrever no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), de tentar vagas em outras universidades utilizando a nota do exame e dos milhares de inscritos no Enem que mesmo com a nota certa não irão acessar ao ensino superior porque não há vaga para todos os que querem acessar à universidade. 

O temor da burguesia

Antes de qualquer coisa, não se pode ter nenhuma ilusão naqueles que pedem o impeachment de Weintraub. Um bom exemplo é a declaração de Tabata Amaral (PDT)  – que lidera o grupo que protocolou o pedido no STF – por meio de um vídeo publicado em seu Twitter, em que diz:

"Nós apresentamos um pedido de impeachment do Weintraub no STF, não porque discordamos da sua ideologia, mas porque ele cometeu uma série de crimes de responsabilidade". 

O que incomoda a burguesia não é o programada de Bolsonaro, Guedes e Weintraub. É por isso que mesmo não desejando esse governo, podemos ver declarações semelhantes a de Tabata em jornais burgueses tradicionais (Globo, Estadão, Folha de S. Paulo etc.). Para a classe dominante o cálculo é simples: quem conseguir arrancar tudo o que puder da classe trabalhadora e da juventude, sem causar muito estrago, tem a permissão para continuar no governo. 

O problema é que Bolsonaro não foi a primeira opção da burguesia durante o processo eleitoral e se fosse possível substituí-lo por outra coisa, já teriam feito. O que é possível fazer agora é tentar amenizar o máximo possível os impactos das declarações do presidente, de seus ministros e tentar impedir qualquer reação que possa fazer com que o Brasil se torne um Chile. 

Duas questões importantes ficam evidentes nesse processo: a fragilidade do governo Bolsonaro, que se sustenta basicamente pela falta de uma oposição real e a preocupação de uma parcela da burguesia – e dos reformistas – com a possibilidade de uma explosão social causada pelo próprio governo. 

O que deveria fazer a UNE?

A UNE, como entidade máxima dos estudantes, em primeiro lugar, deveria explicar que “erros” como esse só podem deixar de existir quando a universidade, e toda a educação brasileira, for pública, gratuita e para todos e que isso significa lutar pela estatização de todas as universidades privadas, combater pelo fim dos vestibulares e do próprio Enem. Afinal, todos esses exames servem como um funil para o governo – o mesmo que não é capaz imprimir provas corretamente – “filtrar” os jovens mais “preparados” para que estes tenham acesso ao ensino superior público, deixando a ampla maioria dos jovens fora da universidade ou destinados a pagarem mensalidades nas instituições privadas. Segundo os próprios dados do governo sobre o último Enem, um em cada quatro estudantes de classe média entra na universidade e apenas um a cada 600 estudantes pobres chega com sucesso ao ensino superior. 

Ademais, o que se espera do principal instrumento de combate da juventude é a ação nas ruas, escolas e universidades públicas e privadas de todo o país. Chamar uma mobilização de um dia para 18 de março – dois meses após o anúncio dos erros do Enem –, por mais que aparente ser importante por ser um dia de luta unificado com professores, é insuficiente. Está claro que o que buscam é apenas fingir que um combate está sendo travado. 

Mas não podemos esperar algo diferente da atual direção da UNE. Há décadas a entidade é dirigida pela União da Juventude Socialista (UJS), ala jovem do PCdoB, em aliança com PT, PDT, Consulta Popular e Levante Popular da Juventude, partidos e organizações que se adaptaram ao capitalismo e não acreditam nem na capacidade de luta dos estudantes e trabalhadores nem na possibilidade de lutar por educação pública, gratuita e para todos, pauta histórica do movimento estudantil, presente no Congresso da Refundação da UNE em 1979.

Desde o início de 2019, o governo Bolsonaro tem cortado as verbas da educação colocando universidades inteiras em risco de ficar sem condições de pagarem contas básicas como água, luz e internet. Recentemente, foi publicada uma portaria do MEC que restringe o número de participantes brasileiros em congressos nacionais e internacionais, mesmo que a despesa com a viagem não seja do governo. De acordo com o Estado de São Paulo, cientistas “dizem que a medida não tem precedente em nenhum lugar do mundo democrático e ‘impõe uma limitação ao desenvolvimento da ciência’”. Esse governo representa a decadência do ensino superior público e, portanto, as lutas que não coloquem como centro a necessidade de derrubar esse governo, não passam de enrolação. 

A resposta para os que buscam um combate sério está na construção na base, em cada local de estudo. Com mobilização dentro e fora das escolas e universidades. Aos estudantes, cabe à luta. Somente a luta pelo Fora Bolsonaro e pela construção de uma nova sociedade livre dos vestibulares pode garantir educação pública, gratuita e para todos. 

 

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