Um roteiro pela instabilidade política mundial no Acampamento Revolucionário

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Johannes Halter

segdiaUma intensa bateria de debates políticos e teóricos marcaram o segundo dia do Acampamento Revolucionário da Liberdade e Luta. E todo o esforço de concentração e aprimoramento  nesta sexta-feira (27/1)  foi coroado com um luau na Praia dos Ingleses, em Florianópolis. Em todas as falas, de jovens brasileiros ou de convidados internacionais, transparecia um traço marcante: a instabilidade política ronda o mundo.

Mal terminaram o café da manhã, os participantes foram convidados a percorrer dezenas de países do globo terrestre, na mesa de debate “As lutas da juventude no mundo”. A viagem começou com o britânico Joe Attard, membro da Federação de Estudantes Marxistas, que partiu de observações mundiais sobre a crise do capitalismo desde 2008. Enfatizou a taxa de desemprego mundial, e a gritante fração juvenil desse número impressionante. Como não poderia deixar de ser, concentrou muito de sua análise sobre os desdobramentos desse cenário no Reino Unido.

Constatando a soberba da classe dominante inglesa, que se orgulha de ser a mais estável do mundo, Joe elencou os fatores de abalo da tradicional sociedade dessa grande ilha europeia: reforma educacional; revogações dos programas de auxílio estudantil; queda na qualidade do ensino, e das oportunidades de acesso; deterioração das condições de trabalho, e serviços de exploração maior; redução pela metade dos proprietários de imóveis com até 25 anos. Em uma palavra, descreveu a situação como sombria.

Adepto da concepção materialista e dialética da história, também enfatizou que esse método de análise da realidade permite compreender que as coisas e a sociedade pode se tornar em seu contrário em determinado momento. E seguindo essa forma de pensar, o jovem marxista apresentou o Brexit, resultado do referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, como um ponto de virada no curso anterior. Consequência da cada vez maior polarização social, a decisão acentuou a guerra civil dentro do Partido Trabalhista, e a agitação entre as forças políticas à direita.

Após abordar as marcas internacionais comuns e particularidades na França, Grécia, Itália, Espanha e Paquistão, Joe foi seguido pelo argentino Marcelo. Representante da Corrente El Militante, ele guiou os jovens acampados pela história recente do seu país, para melhor localizar os problemas enfrentados por lá.

Explicou que a mesma fração da burguesia que apoiou a ditadura e esteve no poder na década de 1990 agora voltou ao controle direto do Estado com o governo de Macri. Com sua posse, 27 financistas de Wall Street assumiram status de representantes governamentais, ou seja, assaltaram o país eles mesmos. Ao mesmo tempo, Marcelo registrou dados sobre a economia em crise, relacionando o desmonte das indústrias, as consequências do atraso estrutural, a incapacidade de desenvolver forças produtivas, e a queda da taxa de lucro constante.

Diante desse cenário, ele assinalou que a burguesia argentina, alinhada aos órgãos imperialistas internacionais, tem como objetivo desatar uma ofensiva incessante para rebaixar os custos da força de trabalho, e aumentar a extração de mais valia. Isso ao mesmo tempo em que saqueiam o Estado para garantir uma fonte de recursos imediata, sob as custas dos serviços públicos, empresas estatais e recursos naturais do país. Mas isso tudo tem alimentado uma onda política de indignação, que segue o traço geral marcado por Joe em relação aos países que citou.

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Uma dramática narrativa foi exposta em seguida pela venezuelana Amanda. Destacando as raízes revolucionárias que levaram a Venezuela até o impasse atual, demonstrou as condições de vida sob as quais a população tem sobrevivido. Uma inflação de cerca de 560% tem deteriorado os já débeis salários e capacidade de consumo. Resultado principalmente da queda do preço do petróleo, essa situação se agrava com a postura oscilante do governo de Nicolas Maduro.

Esse, ancorado em uma tese reformista do capitalismo, insiste em tentar encontrar um acordo com a burguesia nacional. Essa orientação se expressa, por exemplo, na manutenção de mais de 70% da produção nas mãos dos capitalistas. Contudo, Amanda enfatizou a hostilidade da classe possuidora no país pelo governo, e pela classe trabalhadora. Resultados disso são as sabotagens industriais, o desenvolvimento do mercado negro, e a permanente tentativa de retomar o Estado para suas mãos, seja pelo voto, ou por manobras parlamentares e ensaios de golpes de estado.

Em sua descrição também foi lançada luz sobre o protagonismo das massas trabalhadoras do país. Essas tem resistido tanto às investidas da direita, como também às traições do governo e da burocracia sindicais, parlamentares e partidárias do PSUV. Enfrentando condições temerosas de sobrevivência, mantém viva a esperança de encontrar uma saída para o impasse instituído no país. Contudo, cada vez mais parcelas de exploradas entram em estado de desmoralização diante de mais de uma década de uma guerra civil não declarada.

Os três convidados internacionais do Acampamento Revolucionário frisaram o protagonismo juvenil em todos os processos políticos que se radicalizam nos países que abordaram. Um destaque emocionante foi feito aos meninos e meninas, e aos jovens homens e mulheres que vivem e morrem nas dezenas de zonas de guerras localizadas promovidas pelos países imperialistas ao redor do globo terrestre. Também sofrem barbaridades aqueles que tentam fugir dessas regiões de horror, acabando por morrerem afogados, ao chegarem nas praias, de fome, ou até mesmo de frio como nos últimos meses no inverno europeu.

A solução apontada pelos três consistia em fortalecer uma vanguarda de trabalhadores e jovens em cada país. Essas precisam ser capazes de contribuir para que o movimento espontâneo de resistência consiga ser capaz de se colocar as tarefas históricas para transformar esta sociedade em estado terminal. Para isso, a juventude joga um papel importante, sendo a primeira a entrar no caminho da revolução, e com a capacidade de atrair as gerações mais velhas de trabalhadores para os palcos de lutas sociais que colocam em perspectiva a substituição desta sociedade de horrores por um mundo novo, construído pelas classes produtoras de hoje.

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