O ENEM não deve ser valorizado, mas abolido!

Mell Pecóis
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               Jovem se desespera por chegar atrasada na edição 2016 do ENEM 

No dia 7 de abril, a direção da União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES) promoveram um “tuitaço” para subir a tag #valorizeoenem. O objetivo era ganhar atenção para a ação protocolada por essas entidades na Justiça Federal pedindo que os espelhos das provas da redação do Enem sejam divulgados e que o prazo do SISU seja estendido até se corrigirem os erros nas correções das provas. No mesmo dia, em sua conta pessoal, o presidente da UNE, Iago Montalvão, usou a hashtag e comenta: “Sabe o que é melhor do que o ENEM? Acesso livre às universidades. Sabe o que é pior do que o ENEM? Os antigos vestibulares, mais excludentes”. Então a direção da UNE reconhece que os vestibulares são excludentes, mas escolhe ignorar a luta histórica pela educação pública, gratuita e para todos, presente na carta de refundação de 1979 da entidade.

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                                                Foto: Instagram Oficial UNE

Há anos a direção da UNE e da UBES reduzem a luta dos estudantes ao campo institucional. Se limitam a pedir justiça nas instituições burguesas que se ocupam em criminalizar estudantes em manifestações, para defender um sistema que já é excludente e foi formado para isso. Em 2019, cerca de 3,9 milhões de pessoas conseguiram fazer a prova, entre 5,1 milhões de inscritos. Ou seja, 1,2 milhão de pessoas já nem conseguiram chegar até o local de prova. As vagas ofertadas em 2020 foram 237.128, de 128 instituições no Brasil, segundo dados do Ministério da Educação (MEC). Isto significa que mais de 2,7 milhões de pessoas ficaram fora das universidades. É esse o sistema que a direção da UNE quer defender?

Os números são ainda piores no exame de 2020 e chegaram a contabilizar 55,3% de abstenção no segundo dia de prova. A pandemia escancarou os problemas de acesso que os jovens da classe trabalhadora já enfrentavam. O número de inscritos foi maior que no ano anterior, mais de 5,7 milhões, mas o número de vagas ofertadas foi reduzido para 209.190 mil. A UNE e a UBES se limitaram a pedir o adiamento da prova, o que nem de perto resolvia os problemas dos estudantes. A prova ainda foi aplicada em salas de aulas lotadas em um completo momento de insegurança sanitária. O recorde nas abstenções é a prova de que milhares de pessoas tiveram que escolher entre não colocar sua vida em risco e a possibilidade de entrar em uma universidade.

Não era de se admirar que o governo Bolsonaro, que negou a pandemia desde o início, negou a vacina, fez cortes no orçamento da saúde, na ciência e na educação, que é inimigo da classe trabalhadora, promoveria com esse exame um verdadeiro circo. Quando o governo passou a ser acusado de negligência e se tornaram um escândalo os problemas nas notas, o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão responsável pela correção da prova, foi demitido do cargo.

Diante desse cenário (ou picadeiro), a UNE explica em seu site que ela “e a UBES defendem que medidas urgentes sejam tomadas para que sejam dadas explicações sobre o processo de aplicação do ENEM 2020, inclusive por meio de investigação e auditoria (...)” e que não aceitarão “que esse exame, o principal mecanismo de ingresso dos estudantes ao ensino superior, perca credibilidade e eficiência”. A maior entidade de representação dos estudantes brasileiros chama de “eficiência” o funil que seleciona alguns estudantes deixando a maioria esmagadora de fora por falta de vagas. Os filhos da classe trabalhadora são obrigados a deixar de lado seu sonho de entrar em uma universidade, ou então obrigados a pagar mensalidades no sistema privado comandado pelos tubarões do ensino.

Inclusive a UNE também já chegou ao ponto de defender a iniciativa privada na educação superior, principalmente quando deseduca sua base com a palavra de ordem “Regulamentar o ensino privado”, ou em prol do Fundo de Financiamento estudantil (Fies), que injeta dinheiro público nas contas dos grandes empresários donos de universidades. A defesa da UNE de um programa tão excludente quanto o Enem, ao invés de organizar a base para lutar pelo acesso de todos à universidade, mostra a covardia do programa político das organizações na direção da entidade, composta por militantes do PCdoB, PT, PDT, Consulta Popular, Levante Popular da Juventude.

Apesar de toda a disposição de luta nítida na juventude, a direção da UNE não organiza ou movimenta sua base. Ao invés de denunciar a dívida pública e exigir todo dinheiro necessário para a educação, pede apenas os 10% do PIB e levanta a bandeira de “valorização” de um instrumento excludente como é o vestibular. Ao invés de lutar por acesso universal na educação em todos os níveis, se contenta com cotas, bolsas em universidades privadas, com vestibulares/funis.

Iago Montalvão admite que o acesso livre é melhor que o Enem. A luta por vagas para todos deveria ser a posição de todas as entidades estudantis que se dizem defensoras do ensino público. O Enem não deve ser valorizado, mas abolido. Somente na luta por uma educação pública, gratuita e para todos, em todos os níveis, com todo o dinheiro necessário para a educação e ciência, e para pôr abaixo o governo Bolsonaro, a juventude e a classe trabalhadora terão a oportunidade de acessar, através da escola e da ciência, todo o conhecimento acumulado pela humanidade. E essa luta só será construída com organização e independência de classe, através dos métodos históricos de combate da classe trabalhadora. Junte-se a nós nessa luta! Milite com a Liberdade e Luta.

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