Parte 4 - Movimento por uma Universidade Popular (MUP): uma análise da sua origem e adaptação

Lucy Dias e Kanansue Gomes

asde
Foto: Twitter UJCBR

Parte 4: Movimento por uma Universidade Popular (MUP): uma análise da sua origem e adaptação A luta pela Frente Única proletária no movimento estudantil: uma análise marxista das teses ao 57º Congresso da UNE

[LER PARTE 1]

[LER PARTE 2]

[LER PARTE 3]

Outro destaque do 57° CONUNE foi o crescimento da UJC. Com isso, o MUP, encabeçado pela UJC, vem se consolidando como uma força a mais no campo de oposição à direção majoritária da UNE. A UJC não colocava peso na eleição de delegados e rasgava seus crachás de votação no congresso. Essa tática mudou precisamente no 55º CONUNE, em 2017. Elegeram três diretores (Executiva de Relações Internacionais, Universidades Públicas e Políticas Educacionais).

O MUP é o resultado de elaborações impulsionadas pela UJC antes de 2011. Naquele ano, realizaram o 1º Seminário Nacional de Universidade Popular (1º SENUP) em Porto Alegre-RS, com a presença de outras organizações, para “compreender a necessidade de ligar as tarefas imediatas de nosso movimento com a construção de um projeto de universidade alternativo ao projeto do capital” (Cartilha do 1° SENUP).[1]

Sem defender abertamente a revolução socialista em seus documentos, derivam sua política a partir da tática de Frente Popular, que concilia os interesses da classe trabalhadora com uma suposta burguesia progressista, o que traz diversas contradições ao seu “projeto de universidade alternativo ao do capital.”

Antes de demonstrar de que modo os defensores da “Universidade Popular” percorrem um caminho que vai do centrismo, ao oportunismo, à adaptação e pôr fim à conciliação de classes, precisamos introduzir a base teórica fundamental para a compreensão dos documentos que vamos analisar, trata-se das Frentes Populares.

A Internacional Comunista (IC), após a morte de Lênin, passou por um processo de degeneração e burocratização que vai levá-la a romper com todos os ensinamentos legados pelos seus quatro primeiros congressos. No 5º Congresso (1924), a Internacional Comunista adota a chamada “teoria do socialismo em um só país” que se contrapõe frontalmente a necessidade da revolução socialista internacional.

No 6º Congresso (1928), aprova-se a tese do “Terceiro Período”, um giro ultrassectário, que levou diversos Partidos Comunistas a abandonarem a Frente Única proletária com os Partidos Social-Democratas, que ainda representavam milhões de operários. Dessa tática, completamente oposta aos ensinamentos da Revolução Russa de Outubro de 1917 e das experiências dos Bolcheviques, resulta no avanço do fascismo.

Já no 7º Congresso (1935) é feito um novo giro, dessa vez, um giro oportunista, onde é aprovada a política das Frentes Populares. Dado o avanço do fascismo, pelos próprios erros da IC, considerava-se que este era uma ameaça não só aos proletários, como também aos camponeses, os pequeno-burgueses em geral e mesmo setores da burguesia. Nesse sentido, a luta pela revolução socialista e a ditadura do proletariado estavam fora da agenda, o que estava colocado era ou fascismo ou a democracia burguesa e a tarefa do proletariado era, portanto, passar a defender essa democracia se associando a setores da burguesia dita progressista numa vasta “Frente Popular”, que na verdade era a aliança com setores burgueses.

Dessa política se desdobra a coligação dos Partidos Comunistas com partidos burgueses em todo o mundo, a participação em governos da burguesia, ou seja, um enorme processo de desmobilização do proletariado para a luta pela sua própria emancipação em conjunto com a luta para derrotar o fascismo. Uma traição que, sob o fantasma da luta antifascista, na verdade, permitia o avanço do fascismo, exemplo disso, foi o pacto de não agressão assinado por Stalin com Hitler em 1939.

Essa política, que leva à conciliação de classes, continua sendo utilizada até os dias atuais, sob diferentes formas. Não à toa o discurso de “onda conservadora”, “avanço do fascismo”, “defesa da democracia” são lançados aos quatro ventos para esconder a busca pela submissão contrarrevolucionária com a burguesia que nada tem de progressista. Por outro lado, essa orientação também serve bem à compreensão errada sobre o processo revolucionário, onde somente em um país avançado, no qual as forças produtivas tenham se desenvolvido ao seu nível máximo, poderia ser palco de uma revolução socialista e, portanto, enquanto isso, seria necessário apoiar as burguesias nacionais “progressistas” a fazer as suas revoluções burguesas.

Trotsky combateu todas essas ideias com a Teoria da Revolução Permanente e a defesa da Frente Única proletária, explicando que nos países dominados pelas potências imperialistas, as burguesias nacionais não são mais que sócias menores do imperialismo e não são capazes de levar a cabo suas próprias revoluções, portanto, as tarefas democráticas da revolução burguesa (universalização do ensino, reforma agrária, reforma urbana etc.) são tarefas que somente a revolução proletária pode alcançar, como mostraram as Revoluções Russas de fevereiro e outubro de 1917.

Tendo como base esse conjunto teórico (Frentes Populares, Revolução por Etapas, Socialismo em um só país) se estrutura o chamado “Poder Popular”, defendido pelo PCB e a UJC, principalmente, e que se faz presente também no MUP.

Embora reivindicando as tradições de Lênin, a ideia de “Poder Popular” se contrapõe às experiências históricas das Revoluções Russas de 1905 e fevereiro-outubro de 1917. Lênin, ao explicar o que seria uma revolução popular escreve:

Se tomarmos para exemplo as revoluções do século XX, temos de reconhecer que as revoluções portuguesa e turca foram revoluções burguesas. Mas, nem uma nem outra foram ‘populares’. De fato, a massa do povo, a grande maioria, com as suas exigências econômicas e políticas próprias, não fez sentir a sua influência nem numa nem noutra. Em compensação, a revolução burguesa na Rússia em 1905-1907, sem ter tido os ‘brilhantes’ resultados da portuguesa e da turca, foi, sem contestação, uma revolução ‘verdadeiramente popular’; aqui, a massa do povo, a sua maioria, as suas camadas sociais ‘inferiores’, esmagadas sob o jugo da exploração, sublevaram-se espontaneamente e imprimiram a todo o curso da revolução o cunho das suas exigências, das suas tentativas paria reconstruir à sua maneira uma nova sociedade no lugar da antiga em vias de destruição” (Estado e Revolução)[2].

Mas, a despeito das revoluções populares na Rússia em 1905 e fevereiro de 1917, apoiadas nas massas oprimidas e exploradas que jogaram peso e suas exigências, somente em outubro de 1917, com a tomada do poder, que a classe trabalhadora enfim teve a oportunidade de pôr em prática seu programa próprio, constituindo-se como força dirigente da revolução e não como seu apoio popular.

Em outras palavras, o “poder popular” que defende a direção do PCB, na prática, é a expressão da concepção de revolução por etapas, que nada mais é do que a submissão dos interesses das massas populares e de trabalhadores aos interesses de uma suposta burguesia progressista. Ou seja, primeiro uma revolução burguesa popular – com apoio das massas – e só depois a revolução proletária.

Em seus primeiros documentos, o MUP apresentava um “projeto de universidade alternativo ao projeto do capital”, com defesa da educação pública e que a universidade atendesse os interesses da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo – e aí já começa a aparecer seu projeto de conciliação – encerrando essa perspectiva no quadro atual das universidades.

Sendo assim, um dos papéis fundamentais da luta pela universidade popular é revitalizar o papel intelectual crítico e criador dentro da universidade atual, rompendo com os parâmetros da educação que tem o mercado como condição e o lucro como fim” (Destaque dos autores. Cartilha do 1° SENUP).

Sua compreensão sobre a terminologia “Universidade Popular” é a de que deve existir uma “ressignificação” da palavra povo, pois

“em um país onde a revolução burguesa ocorreu de cima para baixo, divorciada de uma revolução nacional e democrática, combinando autocracia e dependência com uma modernização conservadora e uma democracia restrita e para as elites, as alternativas populares se divorciaram completamente do bloco de poder dominante, que se tornaram antagônicos entre si. (…) A luta pela Universidade popular, então, se liga a um conjunto de tarefas imediatas da luta ‘dentro da ordem’, de abertura de espaço democrático e conquista da hegemonia popular e que, ganhando vitalidade enquanto movimento, deverá caminhar para uma luta ‘contra a ordem’. Dessa forma, o debate em torno de uma Universidade Popular se revela muito mais do que uma oposição às ‘reformas’ universitárias atuais, visto que se insere na reflexão ativa sobre um outro projeto de sociedade, a ser protagonizado por todos setores explorados e oprimidos pela sociabilidade vigente” (Destaque dos autores).

Em primeiro lugar, afirmam erroneamente ter ocorrido uma revolução burguesa no Brasil. Como país dominado pelo imperialismo, seguimos desde a colonização, sem um processo revolucionário desse tipo.

Ao mesmo tempo, uma revolução “nacional e democrática”, ou seja, de libertação nacional (anticolonial) e democrática, nos marcos do sistema capitalista e da dominação imperialista, como já dissemos, ocorre por impulso da classe trabalhadora como a classe dirigente, dada a debilidade e o lugar de sócia menor do imperialismo das burguesias locais. Além de que a história já provou que uma revolução que se inicie com caráter nacional e democrático apenas encontrará vitória definitiva se avançar para as tarefas socialistas, da expropriação da propriedade privada dos meios de produção e do internacionalismo proletário. Isso está totalmente ausente em seus documentos. No lugar, aparece a “abertura do espaço democrático”, isto é, a disputa das instituições burguesas e não de sua destruição a partir da disputa de poder da classe trabalhadora; aparece “hegemonia popular”, ao invés dos trabalhadores como classe dominante e a concepção “etapista” aparece na defesa de um gradualismo que parte da luta dentro da ordem, para só quando ganhar “vitalidade enquanto movimento” passe para a luta contra a ordem.

No primeiro eixo específico (Ciência e Tecnologia), a compreensão é de que “nas sociedades pré-capitalistas, nas universidades e faculdades, o conhecimento era restrito pelo baixo desenvolvimento das forças produtivas. Após a industrialização, o conhecimento passou a ser restrito por direitos de propriedade intelectual e tornou-se altamente cobiçado por ser instrumental e necessário no processo reprodutivo do capital e de expansão do mercado”. Desse modo, existe uma divisão internacional onde os países “centrais” “colocaram a produção e o conhecimento como pilares de seu projeto de desenvolvimento, criando e aprofundando uma estratificação internacional de conhecimento.” Dessa maneira, “a produção de conhecimento revela a universidade como instituição social e ideologicamente conservadora. Por trás das inovações, dos títulos e das patentes, revela-se o profundo comprometimento com o mundo atual e a silenciosa renúncia em transformá-lo”. Nesse aspecto, se questionam se é possível um conhecimento crítico e emancipatório e concluem somente com indagações sobre esse novo tipo de conhecimento.

Nada mais errado do que pensar que antes do capitalismo o conhecimento não era restrito pela propriedade privada. E a Era das Trevas do período feudal, onde a Igreja Católica controlava todo o acesso e produção do conhecimento? Também na Antiguidade já se observava a divisão entre classes sociais e o controle do conhecimento restrito às classes dominantes. O grande feito do capitalismo, enquanto sistema de produção social, foi ter aplicado a ciência na produção, o que possibilitou um enorme salto de desenvolvimento das forças produtivas, possibilitando pela primeira vez a produção em massa com menor dispêndio de força de trabalho. Desse ponto de vista, as universidades passaram a ter um papel mais proeminente na produção de conhecimento, na difusão da ciência e em sua aplicação na produção de riqueza.

No entanto, a partir do imperialismo é chegada a hora em que a produção de ciência e tecnologia se voltam contra os trabalhadores, para ampliar sua exploração e opressão. Isso não significa que a produção de ciência e tecnologia estancou, no entanto, quando é desenvolvida é utilizada contra os trabalhadores ou é bloqueada e travada pelo capital. A atual crise nas universidades, o ataque à ciência, a tentativa de limitar pesquisadores e professores em suas pesquisas, o engavetamento de projetos, a falta de investimento suficiente nas estruturas e nos salários dos pesquisadores é um sintoma desse bloqueio. Ao mesmo tempo, o imperialismo opera sucateando e privatizando as universidades públicas nos países dominados enquanto centraliza os “cérebros” ao redor de si mesmo, daí a enorme fuga de pesquisadores para os países imperialistas e assim mantém controlada a produção de ciência e tecnologia, atendendo aos seus interesses reacionários.

Assim, as universidades concentram uma enorme contradição sendo elas próprias instituições que atendem ao interesse da burguesia, ao passo que os trabalhadores e estudantes sofrem com os impactos do bloqueio do capital à ciência e à tecnologia. Essa luta de classes presente nas universidades também tem impactos na produção científica e é nesse período de declínio do sistema capitalista que vemos um retorno ao misticismo, ao impressionismo, ao obscurantismo, ao idealismo etc. nas universidades.

De novo, pensar em produção de conhecimento “emancipatório” e “crítico” em nada rompe com o sistema vigente atual. Aceitar essas instituições ideologicamente conservadoras e por dentro delas buscar moldar uma nova consciência é uma tarefa que somente pode levar à conciliação de classes e à adaptação às ideias estranhas à classe trabalhadora, como as ideias pequeno-burguesas e liberais.

Nesse sentido, o conhecimento “crítico e emancipatório” é aquele que eleva as consciências dos jovens e trabalhadores para sua própria emancipação enquanto classe, ou seja, a ciência revolucionária do marxismo, que não é ensinada nas salas de aula, mas na atividade militante revolucionária.

É certo que existem pesquisadores e estudantes que têm simpatia pelo marxismo nas academias, que estão buscando maneiras de lutar, no entanto, nosso dever como revolucionários é explicar que essa luta deve sair da sala de estudo, da biblioteca, dos livros e atingir a vida, como Marx mesmo já explicou: o que importa não é só entender o mundo, mas transformá-lo. Semear ilusões no contrário somente contribui para a manutenção do capital.

Com relação ao segundo eixo (Autonomia e Democracia) apontam como grande desafio da construção da Universidade Popular a luta por “construir as mediações democráticas para a organização coletiva de nosso povo na gerência do trabalho social produzido no espaço universitário” de modo que os produtores devem ter autonomia sobre seu trabalho “não sendo determinados por outra força (o lucro, por exemplo)”.

Dessa maneira, a Universidade Popular compreende que nas universidades existem “poucos espaços abertos para a discussão, para a interferência dos setores progressistas da sociedade como um todo, para a livre escolha dos dirigentes pela comunidade universitária e para o exercício da transparência democrática nos processos de construção de planos político-pedagógicos sobre a pesquisa e a extensão, entre outros”.

A fraseologia aparentemente revolucionária se converte em adaptação. A “organização coletiva do povo para a gerência do trabalho social produzido no espaço universitário”, que deveria significar os trabalhadores auto-organizados e decidindo os rumos da produção científica para atender suas necessidades, dá lugar a “interferência de setores progressistas da sociedade como um todo, para a livre escolha dos dirigentes pela comunidade universitária”, que significa a intervenção em eleições “democráticas” que escolhem os carrascos a aplicar o orçamento enxugado que vem do governo para as universidades públicas, sem questionar esse orçamento, o convite é para intervir “democraticamente” em eleições, em conselhos universitários, de mãos dadas com “setores progressistas da sociedade como um todo”, pode-se incluir também a burguesia!

No terceiro eixo (Formação Universitária) reclama da “crescente dissociação entre o ensino, a pesquisa e a extensão e a busca por submeter estes elementos da formação à lógica privada” onde, por essa lógica, ocorre uma “massificação de bacharelados ‘genéricos’ com salas superlotadas e a expansão do ensino a distância puro ou mesclado com ensino presencial” enquanto que nas universidades públicas, o ensino tem um caráter “academicista, individual e desconexa com uma inter-relação com os anseios de transformação da realidade”. Dessa forma, concluem que “a construção de uma formação oposta à lógica dominante exige não só o apetite pelo conhecimento, mas também a ânsia por transformação, colocando o conhecimento como um bem social e coletivo e não uma aquisição individual, fazendo com que o aprender e o ensinar sejam inseparáveis de um todo”.

A crítica está correta, mas construir uma formação oposta à lógica dominante exige não só ânsia por transformação dentro das universidades, mas pela transformação socialista da sociedade. De novo, frases genericamente revolucionárias, mas ocas pela ausência de um programa independente para a classe trabalhadora e a juventude, que rompa com os interesses da burguesia.

Tomar o conhecimento como um bem coletivo que sirva para melhorar a vida humana, exige a estatização das universidades sob controle dos trabalhadores e jovens, o acesso universal às universidades, portanto, garantia de vagas para todos nas universidades públicas sem a necessidade de vestibulares, que nada mais são do que barreiras que impedem o acesso dos jovens trabalhadores à educação universitária. Essas demandas não estão desconectadas da luta por um governo dos trabalhadores, exigem a luta por uma revolução com o proletariado como classe dominante, que tome os grandes meios de produção das mãos da burguesia e vença sua resistência.

O último eixo (Universidade e Sociedade) compreendem que a universidade brasileira se configura como um espaço de desenvolvimento da ciência e da tecnologia. “Para tanto, a ciência e tecnologia e suas aplicações práticas dependem, de modo decisivo, do regime social, das forças que dominam essa determinada sociedade, dos interesses a que o desenvolvimento social está subordinado: em síntese, ao regime de classes em permanente luta”. Para compreender quem produz então o conhecimento que sai das universidades, propõe a análise de quem entra nas universidades, sua origem social e mesmo depois de direitos estudantis e a implementação das cotas, se questionam se a universalização do acesso foi realmente conquistada.

Nesse sentido, concluem que a universidade “não mudará somente de dentro para fora e nem somente de fora para dentro devido à forte influência do sistema vigente da sociedade (o mesmo que cria esse muro funcional). (...) Na busca por uma universidade pública, de qualidade, democrática, crítica, criadora e popular vê-se um caminho estratégico que aponta um horizonte de transformação, não só da universidade, mas de toda a sociedade”.

Mudar a universidade pensando em quem entra nela não resolverá nenhum desses problemas. Não é porque os filhos dos trabalhadores estão entrando nas universidades que o conhecimento produzido vai deixar de ser apropriado pela burguesia, pelo contrário, o que vemos é justamente a burguesia usando das universidades para difundir sua ideologia entre os jovens trabalhadores. Não se muda a universidade, mudando quem entra nela, mas mudando de quem é a sua propriedade. Está claro para nós que queremos a entrada dos filhos da classe operária na universidade, mas não temos ilusão de que o capital vai nos proporcionar isso, teremos de arrancar dele.

Também vemos uma crítica à política de cotas nesse documento, mas que foi totalmente esquecida com o passar do tempo, sem apresentar uma alternativa política para a juventude trabalhadora.

Esse encontro marcou então as bases para a definição dos princípios do MUP. Na Carta de Fortaleza de 2014[3] temos alguns aspectos mais práticos decorrentes das definições adotadas em 2011, com algumas mudanças, radicalizações, devido ao momento político pós Jornadas de Junho de 2013, outras adaptadas pela pressão do programa das direções dos grandes aparatos.

Nessa carta fazem uma crítica a escolha de pagar a dívida pública feita ritualisticamente pelos governantes que aceitaram gerenciar o capital, mas como medida, renunciam à luta pelo não pagamento da dívida pública e exigem os 10% do PIB para a educação pública já, “não para daqui 10 anos, como propõe o governo, e, sobretudo, a partir das demandas e sob controle da classe trabalhadora”.

Hoje essa demanda, com o mesmo sentido, aparece de outras formas como a exigência de 50% dos royalties do pré-sal para a educação ou o aumento da porcentagem do orçamento do Estado para a educação etc. Mas essa demanda em nada afeta aos interesses do Capital, no qual o Estado continua dando trilhões para o bolso dos banqueiros por meio da “Dívida Pública”. Nesse ponto, essas demandas não se diferenciam radicalmente da direção majoritária da UNE.

Em primeiro lugar, vincular o investimento em educação ao PIB é uma proposta que não atende em nada os interesses da classe trabalhadora uma vez que os investimentos em educação passam a depender das oscilações da atividade econômica nacional, que depende, por sua vez, das políticas econômicas aplicadas no país e do nível de atividade econômica internacional, ou seja, é totalmente incerto.

A partir do ano que o MUP inscreveu isso como sua bandeira, a atividade econômica registrou PIB dois anos consecutivos abaixo de zero e mais dois anos de crescimento inferior a 2%. A política revolucionária para sanar as necessidades que temos na educação, desde a creche à universidade, é todo dinheiro necessário para a educação. Mas o MUP se limita a apoiar a auditoria da “Dívida Pública”, que é um processo para somente dar legitimidade a uma dívida que não foram os trabalhadores e jovens que fizeram!

A Carta de Fortaleza (2014) é um documento que apresenta diversas similaridades com o programa que defendemos (estatização das universidades privadas, fim do vestibular, fim da PM), mas também divergências gritantes e contradições com essas bandeiras radicais. Um exemplo disso é que o MUP mistura a luta pelo fim do vestibular – a luta pela educação pública, gratuita e para todos, que deve ter como consequência a entrada massiva da classe operária nas universidades e, portanto, da juventude negra que está posta para fora hoje, devido ao vestibular – com a defesa das cotas, que pressupõe a manutenção do vestibular e a disputa do atual quadro limitado de vagas pela juventude negra e pobre.

Até esse documento, suas posições mesclavam demandas proletárias com pequeno-burguesas, mas isso muda com o documento apresentado no 57º Congresso da UNE em 2019, que vai se assemelhando ao programa da direção majoritária em diversos aspectos, ou seja, um programa que aceitou o capital e para isso abandonou as posições radicalizadas que poderiam ajudar a organizar os jovens trabalhadores e estudantes.

Em sua tese “Unidade para resistir, ousadia para avançar!”, apesar de toda crítica ao governo Bolsonaro, seu Ministro da Educação e seus interesses privatistas na educação, ao saque imperialista a nível internacional e ao capitalismo de maneira geral, sua conclusão, na verdade lamenta que o “governo Bolsonaro demonstra estar governando somente para os grandes empresários, principalmente o setor financeiro nacional e internacional”, mas alguém tinha alguma dúvida disso? Esse é um governo de ataque frontal aos interesses dos trabalhadores e jovens, no entanto, o que fica implícito é que se o governo Bolsonaro governasse com alguma política social, então tudo bem, mas como estão governando somente para o capital financeiro então não dá, é preciso criticar. Nenhuma palavra sobre derrubar esse governo.

Em seguida, ao fazer a ligação do governo Bolsonaro aos interesses do imperialismo norte-americano fazem a defesa da estatização de todos os setores da Petrobras que foram vendidos nos últimos anos, com o que temos acordo, no entanto, demandam os 50% dos royalties do Pré-Sal para a universidade pública, o que já se contradiz com a proposta de estatização.

Se antes, apareciam como críticos aos programas de transferência de dinheiro público para o setor privado da educação, nesse documento afirmam que “mesmo o acesso ao ensino privado, realizado em larga escala durante os governos do PT, está ameaçado, com reduções nos programas do ProUni e do FIES (...) Nas universidades privadas, devemos defender os alunos e trabalhadores! A manutenção dos programas do ProUni e do FIES, que já são limitados, é condição necessária para a permanência de milhões de brasileiros no ensino superior e não vamos tolerar cortes nesses programas”.

Na verdade, os fatos mostram e, inclusive, a própria mídia burguesa revela que milhares de estudantes do PROUNI não conseguem terminar a universidade, pois não têm apoio financeiro. Outros, que utilizam o FIES, continuam endividados por anos e na prática pagam para estudar. A estatização que antes aparecia como reivindicação some completamente e a manutenção de programas que transferem dinheiro público para universidade privada são o foco do documento.

Também aparece a regulamentação do Ensino à Distância, ou seja, a aceitação da redução de custos por parte do capital, a precarização do ensino nas universidades privadas e a destruição de parte das vagas para professores universitários: é a regulamentação do ensino privado e não seu fim!

O fim do vestibular que antes aparecia como reivindicação é abandonado pela defesa e não apoio crítico, como antes, das cotas raciais. Toda a parte programática que tinha um tom revolucionário é abandonada em favor da conciliação de classes nesse documento.

Assim como diversas organizações de esquerda, a direção do PCB, após a eleição de Bolsonaro, aderiu a ideia de “onda conservadora” e “ascensão do fascismo” tão fortemente difundidas pela direção do PT e pelas correntes majoritárias do Psol. Isso leva essas organizações à conciliação com a burguesia para lutar contra o “mal maior”: Bolsonaro. Na verdade, essas direções não confiam mais no poder da luta da classe trabalhadora e da juventude e preferem nos entregar de braços abertos à exploração capitalista pelo bem da “defesa da democracia”.

Além disso, durante todo o documento percorre uma disseminação de defesa da “soberania nacional”, da “democracia” etc. Dissemina-se a ilusão de o Brasil era um país soberano e que, com a eleição de Bolsonaro, passamos a estar subordinados pelo imperialismo norte-americano, como se isso não tivesse acontecido nos governos do PT e antes, como se a condição de capitalismo dominado pelo imperialismo que o Brasil tem fosse algo que muda de governo para governo e que basta colocar a produção científica a serviço da população e aos interesses nacionais que teremos nossa soberania de volta. Se os documentos anteriores não tinham uma visão clara sobre o processo de dominação imperialista, esse é ainda mais frágil nesse aspecto.

A paulatina adaptação política que vemos no programa do MUP, se assemelhando ao programa da direção majoritária da UNE, também se expressa em sua adaptação em termos de métodos e assim se explica a eleição dos três diretores à direção.

Mas as coisas vão além disso, em 2019 começou a valer a reforma eleitoral de Eduardo Cunha, onde somente acessariam, proporcionalmente, o fundo os partidos que tivessem pelo menos 1,5% de votos válidos no pleito de 2018, e diversos partidos passaram a realizar uma corrida eleitoreira para não perder o fundo partidário. Sem independência financeira não há independência política e o fato é que diversos partidos dependem desse repasse para conseguir manter suas atividades militantes e isso os leva a uma política de adaptação ao regime burguês, de conciliação de classes, de utilizar as entidades como espaços para manter seus privilégios burocráticos e, naturalmente, frear as lutas dos estudantes e trabalhadores. A mudança qualitativa na postura da UJC e do MUP no Congresso da UNE, começa em 2016 sob os efeitos do impeachment da Dilma e do governo de Temer (MDB), preparando a virada para o CONUNE de 2017. Essa tática ganha novas proporções com o corte do fundo partidário projetado para o ano de 2019 e durante todo o ano de 2018, o MUP concentra todas as suas forças para aumentar sua participação na direção da UNE e passar a ter mais militantes liberados pagos com o dinheiro do monopólio das carteirinhas.

Naturalmente, a adaptação do PSOL à política do PT em 2018-2019 também contribuiu para dar maior visibilidade à política do MUP, o que os permitiu disputar o espaço político com um programa que aparece como sendo mais à esquerda. Seu crescimento revela sim uma maior inserção no movimento estudantil, maior participação nas entidades de base e nos cargos diretivos, não há dúvida, mas com os métodos e programa que explicamos acima.

[CONTINUA NA PARTE 5]

Referências: 

[1] Disponível em: https://ujc.org.br/resolucoes-do-1o-seminario-nacional-de-universidade-popular-senup/

[2] Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/08/estadoerevolucao/index.htm

[3] Disponível em: https://ujc.org.br/carta-de-fortaleza/

Data post