Crítica aos pressupostos da pedagogia no capitalismo

Cauã Florentin*
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No capitalismo, o ensino se apresenta como aspecto fundamental para a estruturação do modelo social. Entretanto, apesar de tamanha importância, é possível observar o abandono sistêmico tanto no investimento nessa área, quanto na produção acadêmica.

O ensino público brasileiro apresenta-se com infraestrutura, investimentos, recursos e qualidade em condições precárias e essencialmente atrasadas. A priori, se percebe condições materiais onde o desenvolvimento da educação é questionável, porém, considerando profundamente, há uma ausência de imersão teórica e caráter crítico. Isto, a posteriori, causa problemas na formação acadêmica estudantil. Nota-se tal fenômeno no fato dos componentes curriculares apenas oferecerem informações -muitas vezes técnicas-, além do incentivo e avaliação dos alunos pela reprodução fiel ao conteúdo ministrado.

Em função do aparente tecnicismo no meio acadêmico, não há um processo abstrativo de entendimento do “ensinado”. Além disso, há uma carência de apoio ao pensamento crítico, lógico e original para os educandos. Em contrapartida, os mesmos conhecimentos lecionados derivam de vários processos do pensamento complexo e intelectual de inúmeros autores ou especialistas. Dessarte, existe uma contradição entre a razão prática [conhecimento adquirido de forma direta ou derivada da experiência individual ou social e acumulado historicamente] com foco pragmático e o irracionalismo teórico [na medida que as informações são reproduzidas sem um processo reflexivo ou de compreensão, alienando as possibilidades de uma visão além da aparência]. Destarte, isto é expresso na avaliação objetiva, por exemplo a pontuação, de aspectos tão subjetivos como o aprendizado.

A pedagogia que se limita ao ensino técnico e prático aos estudantes serve especialmente à formação de mão-de-obra que de preferência seja minimamente qualificada para o trabalho. Hoje, inclusive a qualificação técnica está sendo sucateada e uma formação de nível “técnico”, está, na verdade, formando profissionais auxiliares. Para isso ocorrer, é necessário a ação do Estado com o objetivo de realizar investimentos na educação pública, já que a classe trabalhadora, em grande parte, não possui renda suficiente para o pagamento do ensino privado.

De acordo com Marx no manifesto comunista, “[...] A burguesia vive em luta permanente; primeiro, contra a aristocracia; depois, contra as frações da própria burguesia cujos interesses se encontram em conflito com os progressos da indústria; e sempre contra a burguesia de países estrangeiros. Em todas essas lutas, vê-se forçada a apelar para o proletariado, a recorrer à sua ajuda e, dessa forma, arrastá-lo para o movimento político. A burguesia fornece aos proletários os elementos de sua própria educação política, isto é, armas contra si mesma.”

Outro fator importante, é que após as revoluções burguesas e a formação do Estado moderno, iniciou-se uma dissolução dos princípios da filosofia iluminista como a valorização da razão (este movimento do pensamento burguês foi necessário para o desenvolvimento das forças produtivas e também para combater de forma política as relações feudais) e o início do pensamento irracional centrado principalmente no relativismo como por exemplo o Pós-modernismo, visando ao combate de caráter ideológico direcionado ao operariado. Portanto, o pensamento dominante passou de seu caráter progressista centrado no desenvolvimento racional para um reacionário com a consolidação da burguesia como classe dominante. Sendo assim, houve uma estagnação do progresso do pensamento filosófico do iluminismo e a razão se restringiu ao seu uso prático, isto se expressa na educação política.

Portanto, é possível observar que ensinar é um ato político e está condicionado pelo período histórico, além disso o processo pedagógico é um reflexo das condições materiais e da luta de classes na sociedade, assim como as ideias dominantes são provenientes da classe dominante de uma determinada sociedade. Assim, houve uma transformação das ideias de superioridade natural e uma educação religiosa durante o feudalismo, para uma relação contratual baseada na propriedade e na troca de mercadorias no capitalismo. Nesta transição de modelos sociais foram necessárias muitas ideias progressistas e baseadas essencialmente na razão e em leis naturais do iluminismo com o objetivo de quebrar os laços idílicos que prendiam os servos aos nobres e atacou ferozmente o pensamento clerical. No entanto, após o caráter progressista da burguesia em suas revoluções, ela ficou em sua forma defensiva e o uso racional das elaborações teóricas acabou, junto a isso veio a nova educação política do proletariado, “adaptada” à consolidação da burguesia como classe dominante. 

Ademais, a educação no capitalismo não necessita do entendimento, mas da reprodução do conhecimento historicamente acumulado. Visando o pensamento crítico, racional, lógico e original, é necessário que a classe trabalhadora conquista o poder e retire a sociedade e a educação da influência do capital. Para isso se deve lutar agora pelo ensino público, gratuito e universal em oposição ao sucateamento da educação. Essa luta irá, por sua vez, oferecer consciência de classe aos trabalhadores.

Cauã Florentin* é militante da Liberdade e Luta no Rio Grande do Norte

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