Round 6, Netflix e o horror terrorista na fase de decadência do sistema

Pedro Henrique Corrêa
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Squid Game (nome original de Round 6) é a série mais assistida da história da Netflix. Curiosamente, uma pesquisa constatou que 14% dos brasileiros que a assistiram tiveram pesadelos[1]. O que isso tem a nos dizer? Que ela é o melhor exemplar da aplicação da técnica feita para causar fortes emoções? Talvez não, talvez não apenas isso. Como em toda produção cinematográfica, o roteiro é transpassado pelo posicionamento político do diretor e daqueles que financiam o produto – no caso, a Netflix. Ao lado das típicas cenas de violência explícita, mortes cruéis, cenários estonteantes, roupas cuidadosamente pensadas e atuações extraordinárias, há uma aterrorizante ironia com relação à decadência moral que se manifesta hoje tanto na classe capitalista quanto na classe trabalhadora.

Produções de sucesso que retratam a decadência não só moral, mas sistêmica, não são inéditas na história da Netflix: nos últimos anos foram lançados o filme “O Poço” (2019) e a série “La Casa de Papel” (2018-2020). Round 6, no entanto, é claramente inspirado na dinâmica da franquia de filmes “Jogos Mortais”. Jogos Mortais, contudo, foi lançado em 2004 em um contexto econômico bem distinto. Naquela época, as bolsas americanas viviam seu período de “bull market”, iam muito bem, o que fez com que as cenas de terror e suspense chamassem a atenção do público mais por um tipo de “entretenimento terrorista” do que por reflexões filosófico-políticas.

A série Round 6 foi lançada após dois episódios traumáticos da história recente: a crise de 2008, já não tão recente assim mas que ainda continua, e a vigente pandemia de Sars-Cov-2. O aumento da miséria para a maioria, da riqueza para alguns e as incontáveis mortes ligadas à COVID-19 criaram um clima “melhor” para que os “jogos mortais coreanos” fossem vistos primariamente como uma peça de “crítica social”. Obviamente, temos que levar em conta que a Netflix atingiu a marca de 222 milhões de assinantes em todo o mundo[2], e isso tem peso. Nunca uma empresa fabricante de produtos audiovisuais teve tanta força econômica e influência para definir o que deve ser ou não assistido pela humanidade.

Em resumo, a série Round 6 se desenvolve através de uma jornada de seis jogos que simulam brincadeiras infantis comuns na Coréia do Sul, país onde ocorre a trama. Os jogadores são cuidadosamente selecionados entre pessoas em situação de decadência moral, econômica e familiar, as quais são seduzidas a participarem pela oferta de um prêmio milionário. Poderíamos dizer que a maioria dos jogadores estão dentro do que Marx chama de “lumpemproletariado”, que é a parte da superpopulação relativa que habita a esfera do pauperismo, lançada a viver por caridade, mendicância, tráfico, trapaças, golpes, ou a se vender como instrumento da reação. À primeira vista, apesar de ser uma oferta esquisita – ganhar grandes quantias através de brincadeiras de criança –, a oportunidade é vista como a grande salvação, principalmente para os que consideram não ter salvação alguma.

Ao chegarem ao campo de jogos e participarem do primeiro desafio, os participantes descobrem algo chocante: os eliminados serão mortos. Mesmo sabendo disso, após reviravoltas, a maioria decide continuar na competição após chegar à conclusão de que viver como antes é pior do que a possibilidade de morrer disputando o prêmio. A esperança que os move vem da crença de que todo o sofrimento individual poderia ser magicamente superado através da aparente capacidade de “tudo” comprar presente no dinheiro. A diferença entre perder a chance de obter essa capacidade, que parece ao alcance do braço para os jogadores, e a própria morte, torna-se insignificante.

Ao invés de um bezerro de ouro para adorarem, como na história bíblica, os players adoram um gigantesco porco de acrílico com bilhões de wons (moeda sul-coreana) erguido sobre suas cabeças. Quando um jogador é “eliminado”, notas de won caem dentro do porco e aumentam o prêmio final, gerando verdadeiro hipnotismo nos presentes. Todo esse dinheiro é oriundo de ricaços capitalistas que, de fato, tudo – ou quase tudo – podem comprar, e que encontram nos jogos uma forma, digamos, bem excêntrica, de divertimento. Diante das emoções intensas que o dinheiro já os proporcionou em vida, os ricaços encontram nos jogos mortais uma forma superior de deleite pela morte. Claro, a morte dos outros.

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Em meio a toda a agressividade, temperada por pequenas doses de afeto entre os jogadores, encontramos o idealizador e líder mascarado do Jogo da Lula (tradução direta do nome oficial Squid Game). Para ele, o problema do mundo estaria longe de ser a competição em si, mas a desigualdade de oportunidades para competir; essa sim criaria as bases para a corrupção, o egoísmo e a disposição para matar em proveito próprio. É uma concepção semelhante à de filósofos liberais como John Rawls, que, em 1971, defendeu em seu livro “Uma Teoria de Justiça” que uma sociedade justa forneceria direitos e deveres de maneira igualitária, fazendo assim os próprios indivíduos encararem a desigualdade como vantajosa. Nunca chegou a nascer uma “teoria da igualdade de oportunidades”, mas essa ideia influenciar fortemente organismos políticos e acadêmicos, em todo o mundo, até hoje.

Em entrevista, o diretor Hwang Dong-hyuk disse, sobre a série:

“Eu queria escrever uma história que fosse uma alegoria ou fábula sobre a sociedade capitalista moderna, algo que retratasse uma competição extrema da vida. Mas eu queria usar o tipo de personagem que todos conhecemos na vida real” [3]

Os personagens que mais passam aos espectadores a certeza de vitória são aqueles que tratam família, amizades e amores apenas como apoios transitórios, perspectiva que Park Hae-soo homem de negócios endividado, encena muito bem. Sagaz e genial desde a infância, promissor trabalhador de colarinho branco ou empresário, frio na medida certa para fazer fortuna, Park Hae-Soo vai à bancarrota após fazer apostas malsucedidas e manobras ilegais no mercado financeiro. Um verdadeiro “desperdício de oportunidades”.

Temos também o protagonista Lee Jung-jae, amigo de infância de Park Hae-Soo. Ingênuo e sentimental, Jung-jae é um ex-operário metalúrgico divorciado que mora com a mãe. Após uma greve em sua empresa – inspirada em fatos reais, a histórica greve com ocupação de fábrica tocada pelos operários da empresa SsangYong, em 2009 – que acabou tragicamente, foi demitido e perdeu o prumo da vida. Agora viciado em jogos de azar, o protagonista passa a ter como única ambição conseguir dinheiro suficiente para sobreviver pequenos períodos, e consegue por empréstimos com agiotas, amigos e pela extorsão da própria mãe idosa. Um lumpemproletário “do bem”.

Uma coisa que podemos perceber ao longo dos episódios é que o amor do tipo Eros, apaixonado, devoto ao ente amado, não encontra espaço na série, seja dentro ou fora do jogo. Quando a situação econômica ameaça levar o indivíduo à miséria, permitir-se viver as torturas e delícias do amor é entregar-se a uma prática arriscada. Eros escraviza e expõe o indivíduo a fraquezas que podem levá-lo à morte. Como defendeu Alexandra Kollontai em “Abram caminho para o Eros alado!”[4], seguir pelo caminho de Eros não é uma mera questão de escolha individual, mas fruto de condições históricas que abrem espaço para ele. Para um combatente durante uma guerra, as paixões “mais reais” são aquelas sobre quem irá vencer o combate ou como sobreviver. Essa paixão “mais real” é incompatível com o exigente Eros, que tira noites de sono, faz vacilar o cálculo racional e enche a mente de confusão. Round 6 mostra que ter Eros como companheiro nesse mundo cada vez mais competitivo é uma insanidade suicida. O retrato dessa insanidade se faz através da jogadora 212, a passional Han Mi-Nyeo.

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Ao nosso ver, a mensagem implícita transmitida aos espectadores é que a auri sacra fames – a “maldita ganância por ouro” – espalhada no mundo, gera competição assassina entre os trabalhadores, fazendo-os perderem a sensibilidade pelo sofrimento alheio e colocarem os interesses pessoais na frente dos coletivos. Além disso, gera uma camada de capitalistas que vivem como parasitas: desocupados, passam a vida a buscar emoções intensas, mesmo que elas custem montanhas de dinheiro e a morte de outras pessoas. A degeneração moral avança em todo o tecido social, e a única conclusão possível através da série é que a humanidade está fadada à ruína completa. O niilismo[5] é ofertado ao espectador em pequenas doses de veneno ao longo de cada episódio, veneno que é capaz de matar qualquer projeto de progresso ou transformação social. A palavra de ordem é “Salve-se quem puder! Mas quem conseguir, vença!”.

Round 6 não é uma série feita para retratar a luta de classes, mas sim para elevar o massacre diário de trabalhadores em situação de desespero com o aumento da crise, do desemprego, dos preços, da morte e da fome ao formato de um horror show capaz de entretenimento massivo. Quanto mais chocante, mais se falará sobre a série nas redes sociais e sites especializados. Quanto mais se fala sobre a série, mais os algoritmos ajudam o Netflix a ganhar novos assinantes.

Contudo, para ser chocante, o conteúdo precisa, invariavelmente, ligar-se à experiência do próprio expectador no mundo, e, em certa medida, superá-la em intensidade. Por isso o próprio horror se transforma em um horror terrorista. É essencial produzir algo mais horroroso do que se pode ver diariamente nas ruas e favelas das grandes cidades, caso contrário o horror se torna drama.

Ao exibir tendências à “lumpenização”, Round 6 é capaz de provocar algumas reflexões sobre o caminhar da humanidade no sentido da barbárie, mas o seu niilismo só pode conduzir àquilo que interessa à indústria da cultura: à segunda temporada da série ou a outras produções da Netflix.

É esperado que a Netflix não oferte saídas para a crise do capitalismo ou apenas repita as mensagens do Fórum Econômico Mundial – o grande encontro mundial dos ricaços e seus fantoches políticos –, só que cifradas na linguagem de séries, documentários e longas. Afinal, posto que a classe capitalista está presa a propriedade privada e, por isso, não consegue negar a si própria enquanto classe, o capital não poderá ser superado através da ação dos capitalistas. Vale repetir que a Netflix é uma empresa capitalista produtiva social, portanto, de capital aberto, voltada a atender a fome por lucros e dividendos dos acionistas.

Enquanto isso, os trabalhadores, aos serem retratados por uma grande empresa de entretenimento audiovisual, só podem aparecer como (1) impotentes diante de enormes forças estranhas da natureza. Sejam elas no formato de extraterrestres, zumbis, jogos que os controlam, assassinos, vivências de desemprego, miséria, fome etc., ou como (2) mercenários dispostos a tudo contra outros trabalhadores para garantir a satisfação de si e da sua família. Com “sorte”, o trabalhador ingressará no excêntrico clube de capitalistas gozadores da vida.

Todo o grande aparato técnico criado para entreter através de mercadorias audiovisuais e proporcionar lucros para os acionistas da Netflix, e de outras empresas semelhantes, não irá mudar seu caráter sob o capitalismo. Sabemos que hoje ele lança um véu sobre as relações sociais e impede, assim, os espectadores de compreendê-las, justificando assim o capital. Mas seria insensato cobrar destas empresas qualquer posicionamento diferente. A indústria da cultura só irá deixar de produzir falsas desesperanças, ou mesmo esperanças que conduzem a um abismo logo a frente, quando ela deixar de servir ao capital. Ou seja, quando for apropriada pela única classe que carrega a esperança de progresso humano, a classe trabalhadora.

Participe da atividade pública online onde será debatida a série Round 6 por um olhar marxista! Ela ocorrerá no dia 9 de novembro, às 19:30, via plataforma digital. Para receber o link de acesso basta preencher o formulário Google Forms pelo link https://forms.gle/cPWn7w2A6WVL1yZV7 e aguardar retorno.

Referências: 

[1]https://olhardigital.com.br/2021/10/28/cinema-e-streaming/round-6-14-dos-espectadores-brasileiros-tiveram-pesadelos-apos-ver-a-serie/

[2] https://www.poder360.com.br/tecnologia/sucesso-de-round-6-alavanca-netflix-e-lucro-no-3o-trimestre-e-de-us-14-bi/

[3] https://variety.com/2021/global/asia/squid-game-director-hwang-dong-hyuk-korean-series-global-success-1235073355/

[4] https://www.marxists.org/portugues/kollontai/1923/mes/90.htm

[5] O niilismo considera que as crenças e valores tradicionais são infundados, e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência. O pessimismo é sua marca característica.

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