A situação da USP diante da pandemia de Covid-19

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Na Universidade de São Paulo (USP), a pandemia escancarou as péssimas condições de trabalho as quais estão submetidos os funcionários terceirizados: completo descaso com a vida dos trabalhadores por parte da reitoria e o estado de abandono em que se encontram os alunos oriundos da classe trabalhadora, principalmente aqueles que vivem no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP). Isso demonstra que as universidades brasileiras não são espaços neutros de produção científica, alheios às contradições existentes na sociedade de classes, mas lugares onde há confrontos entre interesses antagônicos a todo momento.

E o fato é que essa parcela extremamente pequena de jovens das classes menos favorecidas acabam abandonando seus cursos. Sem políticas de permanência, o acesso de alguns poucos jovens da classe trabalhadora é falso, a USP continua sendo para a elite.

A Situação do CRUSP

O CRUSP, onde se concentra parte dessa pequena parcela de jovens, é palco do descaso. Com lavanderias sem máquinas e cozinhas sem fogões, os cruspianos se viram como podem. Em uma das principais universidades da América Latina, apenas um bloco, dos oito da moradia estudantil, tem acesso à internet, algo fundamental para todo universitário. O contrassenso que a imposição das aulas remotas gerou para os cruspianos tentou ser amenizado com a distribuição de modens, mas foi insuficiente.

A condição foi noticiada muitas vezes por grandes veículos de comunicação, a última foi feita pelo The Intercept, sobre a condição de alimentação, onde as marmitas que a universidade está oferecendo é nutritivamente insuficiente. Com muita pressão externa, a USP foi obrigada a fingir ajuda aos cruspianos, melhorando minimamente a marmita ou dando alguns materiais de limpeza durante a pandemia; a mais notável se refere ao e-mail de 13 de novembro, noticiando uma obra para instalação de internet para todo o Crusp. Apesar dessa melhoria concreta, o problema da falta de água constante nos blocos, da falta de máquina nas lavanderias e de fogões nas cozinhas não foi resolvido.

É preciso que o movimento estudantil paute com muita firmeza as demandas concretas dos moradores do Crusp, como de todo estudante de baixa renda da universidade. Não podemos depender dos jornais da mídia burguesa para denunciar as contradições da universidade, essas notícias não garantem que as demandas dos estudantes sejam atendidas. Só a luta organizada, constante e consciente pode mudar as condições atuais. Também é de suma importância que retomemos a pauta de devolução dos blocos K e L, reivindicação histórica que fez a Reitoria trazer uma base da polícia militar ao campus. A relevância da pauta da permanência estudantil foi reforçada pelo ato puxado pelos moradores do Crusp contra o Boat Show, um evento de luxo sediado na raia olímpica da USP que ocorreu entre os dias 19 e 24 de novembro.

Enquanto há aumento massivo do desemprego, corte generalizado de salários, disparada do preço dos alimentos e cada vez mais pessoas deixam de comprar o básico para a sua sobrevivência, a burguesia brasileira vai muito bem, obrigado, comprando barcos de luxo, tudo patrocinado pelo poder público. A raia da USP foi reformada para sediar o evento e faturou R$ 90 mil pelo aluguel do espaço, um trocado, considerando que o Boat Show faturou R$ 155 milhões. O evento provocou uma aglomeração absolutamente desnecessária, com muitos dos seus frequentadores sem máscara, expondo os moradores do Crusp – a raia olímpica da USP, palco do evento, é próxima ao Crusp – e os trabalhadores da universidade ao risco de contato com o vírus.

Diante de condições de vida e moradia tão extenuantes e do contraste entre o abandono do Crusp e a liberação de dinheiro para reformar a raia olímpica para um evento que visa entreter burgueses, explodiu a revolta.

Os moradores do Crusp organizaram atos para denunciar as más condições de moradia e rechaçar o Boat Show. Saíram em marcha pela universidade, fizeram piquetes para restringir o acesso ao evento e não retrocederam, mesmo diante da repressão policial e das retaliações dos frequentadores do evento. Esse movimento demonstra a disposição de luta dos estudantes, da urgência e do potencial articulador das pautas de permanência para um movimento estudantil combativo.

A situação dos trabalhadores

Sem qualquer diálogo com o Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) ou com os funcionários que seriam afetados pela medida, a reitoria impôs aos trabalhadores um plano de retorno compulsório às atividades presenciais. Esse plano implicava o retorno de parte considerável do quadro de funcionários, ignorava a possibilidade de seguir com o trabalho remoto e continha um sério agravante: diferente das recomendações da OMS, não enquadrava trabalhadores acima dos 60 anos e/ou com doenças respiratórias como grupo de risco.

Uma das justificativas da reitoria para o retorno presencial foi que, com a retomada das atividades econômicas, a opinião pública ficaria descontente com a continuidade do trabalho remoto na USP. Essa “justificativa” demonstra que a reitoria de uma das maiores universidades da América Latina não tem qualquer compromisso com a ciência e muito menos com a vida dos trabalhadores, se pauta pelos interesses políticos daqueles que querem a retomada econômica a qualquer custo, independente do tamanho da pilha de cadáveres que seja necessária para isso.

O Plano de Retorno foi criticado por diversos setores da universidade e gerou uma forte mobilização dos trabalhadores do Sintusp, resultando em uma greve sanitária que durou entre os dias 9 e 25 de novembro. Diante do repúdio generalizado, a reitoria teve que recuar e determinou que cabe aos dirigentes de cada unidade organizar o retorno presencial. Apesar dessa vitória do movimento, é fundamental que a mobilização siga firme, para que os trabalhadores das unidades onde a presença sindical é mais fraca não sejam submetidos a medidas arbitrárias. A volta às atividades presenciais deve ser só com vacina.

Com as recomendações de permanecer em casa e de isolamento social, o trabalho remoto se difundiu em diversos setores. Se por um lado não podemos ignorar a superexploração favorecida pelo home office (como o uso de equipamentos pessoais, sobrecarga de trabalho, jornadas prolongadas indefinidamente etc.), também é necessário reconhecer que ele é uma medida importante para preservar a saúde dos trabalhadores e evitar o contato com o vírus. Na universidade, boa parte do setor administrativo e do quadro de funcionários da própria universidade foi liberado para trabalhar em casa. Esse benefício só pode ser garantido através do direito de organização, dos direitos trabalhistas e do histórico de luta da categoria, que esteve organizada a todo momento para se defender. Os trabalhadores terceirizados, porém, não tiveram outra opção senão seguir com o trabalho presencial, mesmo com o elevado risco de contágio.

Há anos vem crescendo o volume de trabalhadores terceirizados na USP. Com a eclosão da pandemia, esse setor, que sofre com empregos precários, de baixos salários, sem estabilidade, alta rotatividade e escassa possibilidade de organização sindical independente, fica totalmente desprotegido. A universidade submete os mais vulneráveis e que exercem serviços de extrema importância para a manutenção da universidade – como segurança e alimentação – à superexploração e à exposição ao vírus, sem nenhum benefício em contrapartida.

Deve estar na ordem do dia das lutas travadas na universidade o fim da terceirização, a integração dos funcionários terceirizados ao corpo de funcionários da universidade com todos os direitos e a contratação apenas por concurso público.

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